Câncer de intestino: queda na realização de exames de colonoscopia na pandemia preocupa especialistas

Hospital registra queda de 67% no número de exames realizados para detecção precoce da doença

A preocupação com o risco de contaminação pelo coronavírus tem levado muitos pacientes a se focar somente em medidas de prevenção, descuidando de outros aspectos da saúde. O uso da máscara, a higienização das mãos e o distanciamento social seguem imprescindíveis durante a pandemia, mas manter o acompanhamento médico e os exames em dia também são medidas essenciais para se evitar o agravamento de doenças potencialmente graves, como o câncer do intestino.

Um levantamento das áreas de Coloproctologia, Endoscopia e Oncologia Gastrointestinal do Hospital Moinhos de Vento (HMV), de Porto Alegre, aponta para uma queda de 67% no número de colonoscopias entre abril e agosto de 2020, em relação ao ano anterior. A preocupação dos especialistas é que neste ano a redução ocorra novamente, diante do prolongamento da pandemia de Covid-19. Essa diminuição levou à queda de 44% no diagnóstico dos casos de câncer de intestino no mesmo período.

A colonoscopia é um exame fundamental para a detecção da doença. No Rio Grande do Sul, o câncer de intestino é o segundo tipo de maior incidência entre mulheres e o terceiro entre os homens, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer (INCA). “Atualmente, é recomendado o rastreamento das neoplasias (multiplicação anormal de células) no intestino grosso a partir dos 45 anos para ambos os sexos. Se houver caso na família, a investigação deve se iniciar dez anos antes da idade do paciente que teve a doença”, explica o oncologista clínico Rui Weschenfelder, médico do Núcleo de Oncologia Gastrointestinal do HMV.

De acordo com a chefe do Serviço de Coloproctologia do Moinhos de Vento, Heloisa Guedes Mussnich, a colonoscopia é um exame que identifica a existência de pólipos (alterações resultantes do crescimento celular desordenado) que podem se tornar malignos e, portanto, devem ser removidos. “Deixamos de diagnosticar pacientes que podem ter pólipos que poderão se tornar tumores”, destaca Heloisa.

Rui explica que os pólipos muitas vezes não apresentam sintomas. O aparecimento de sangramento nas fezes e a alteração do hábito intestinal já podem indicar uma doença que teve tempo para se desenvolver. “O ideal é fazer o exame periodicamente. Estamos aprendendo com a pandemia. É preciso haver equilíbrio, proteger-se da Covid-19 sem descuidar da saúde. As outras doenças continuam ocorrendo”, afirma o oncologista.

Fonte: Edição do texto original do Hospital Moinhos de Vento. 

Comorbidades: confira quais são as principais doenças que podem agravar quadros de Covid-19

Mais de 20 grupos de doenças já são considerados prioritários na fila da vacinação
 
“As comorbidades determinam um maior impacto na severidade da Covid-19 e, consequentemente, provocam também aumento na mortalidade”, explica a infectologista Ingrid Napoleão Cotta, do Hospital Beneficência Portuguesa, de São Paulo. Por isso, é importante que quem tem uma doença grave e/ou crônica converse com seu médico para entender se tem direito à prioridade na fila da vacinação.

O Plano Nacional de Imunização (PNI) já elencou mais de 20 grupos de comorbidades para a imunização prioritária contra a Covid-19. Contudo,  esta extensa lista está em constante atualização não apenas pelo Ministério da Saúde, mas também pelos estados e municípios, a partir de novas evidências e conclusões sobre os riscos do coronavírus. Doenças neurológicas, como paralisia cerebral e esclerose múltipla, entraram na lista recentemente.

De maneira geral, as principais comorbidades que representam perigo adicional para quadros de Covid-19 são obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, doenças renais graves, doenças pulmonares graves e acometimentos importantes em sistema nervoso central, como elenca Ingrid. Outras doenças, ainda que graves, podem não entrar na lista por não representarem risco específico para pacientes infectados pelo novo coronavírus e suas variantes.

Um exemplo, cita a infectologista, são as doenças osteoarticulares que não necessitam de uso de imunossupressores. Não agravam a Covid-19 porque não comprometem os órgãos essenciais a vida, como o coração, o pulmão, o fígado, os rins e o cérebro.

Outras, contudo, requerem alerta imediato, como a asma, já que os principais órgãos que podem ser comprometidos pelo Sars CoV-2 (o vírus que causa a Covid-19) são os pulmões, sob risco de insuficiência respiratória. “Pacientes com asma, em geral, apresentam exacerbação da doença com infecções pulmonares”, adverte a médica.

Pessoas com alergia a ingredientes das vacinas são as únicas, a princípio, que devem evitá-las necessariamente. “Nesses casos, deve-se seguir as recomendações já oferecidas a toda a população, como distanciamento social, uso de máscara preferencialmente cirúrgica, higienização das mãos e evitar sair de casa”, orienta Ingrid.

Diante da nova variante Delta, a mutação mais perigosa do novo coronavírus até aqui, “mais transmissível e provavelmente mais mortal”, é importante que quem puder se vacinar o faça o quanto antes, tomando as duas doses dentro do período indicado quando chegar a sua vez (apenas a Janssen, da Johnson & Johnson, requer dose única). E, mesmo após a vacinação, todos precisam manter as medidas de proteção até que a maioria da população esteja efetivamente imunizada.

Especialista explica por que é seguro (e necessário!) doar sangue durante a pandemia

Os protocolos de segurança sempre foram rígidos e medidas adicionais foram implementadas nesta fase

Com a redução do número de doadores em decorrência das medidas restritivas de circulação e do receio das pessoas de se deslocar até os bancos de sangue, os estoques ficaram muito baixos ao longo da pandemia em todo o país. Mas o procedimento pode ser feito com segurança, conforme explica o médico Sérgio Vieira, líder da hematologia e coordenador do Banco de Sangue do Hospital do Coração – HCor, em São Paulo. O banco conta com a certificação diamante no Programa de Acreditação Qmentum International (IQG, na sigla em inglês), que monitora padrões de alta performance em qualidade e segurança na área de saúde e permite que as instituições acessem padrões internacionais de excelência e inovação. Confira a entrevista com o especialista:

Saúde da Saúde – Muitas pessoas deixaram de doar sangue durante a pandemia. Qual foi a consequência disso para os bancos de sangue?
Sérgio Vieira – Os tipos sanguíneos com Rh negativo foram os primeiros a faltar e os estoques de tipos sanguíneos com Rh positivo ficaram abaixo do que é considerado um nível crítico. Com isso, foi necessário um grande esforço para remanejamento de cirurgias não urgentes e outras medidas de redução do consumo de sangue para que fosse possível atender pacientes críticos e emergências. Também foram desencadeadas grandes campanhas de conscientização sobre a segurança e a importância da doação de sangue neste momento.

Doar sangue é mesmo seguro nas atuais circunstâncias?
Os bancos de sangue se prepararam para seguir todas as medidas necessárias para garantir a segurança de doadores e colaboradores. Principalmente no momento atual, após um ano de pandemia, já se sabe muito bem quais são os meios de contaminação e, por isso, é possível implementar medidas de proteção muito eficazes. Entre as medidas adotadas estão o distanciamento entre os doadores, a utilização de máscara por todos, sejam doadores ou colaboradores do banco de sangue, o uso do álcool em gel para limpeza das mãos, entre outras orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quais são os cuidados necessários para quem decide doar neste momento?
Além das recomendações habituais, como vir alimentado e evitar esforço físico após a doação, nesse momento de pandemia recomendamos que o doador procure ir ao banco de sangue de segunda a sexta, quando o fluxo de pessoas é menor. Também é orientada a utilização de máscara durante todo o período em que estiver no banco de sangue e, sempre que possível, entrar em contato antes de ir ao local para verificar previamente se há algum impedimento à doação em decorrência, por exemplo, de medicamentos em uso, exames ou tratamentos a que a pessoa tenha sido submetida recentemente, doenças das quais seja portadora ou vacinas que tenha recebido recentemente. Com isso, é possível evitar deslocamentos desnecessários.

Quem pode e quem não pode doar sangue?
A legislação brasileira é bem detalhada a respeito da doação de sangue. Então, existem muitos itens que precisam ser verificados. De modo geral, podem doar pessoas saudáveis, entre 16 e 69 anos – se menor de 18 anos, é necessária autorização por escrito de um responsável legal e, se maior de 60, só poderá doar se já tiver doado alguma vez antes de completar 60. Também é necessário ter peso superior a 50 quilos e não ter feito tatuagens nos últimos 12 meses. Os sites dos bancos de sangue costumam ter uma lista completa dessas orientações.

Com que frequência uma pessoa pode doar?
O doador de sangue total, ou seja, aquele que doa uma bolsa de sangue, pode fazer quatro doações ao ano, se for homem, e três doações, se for mulher. Essa frequência pode ser diferente para outros tipos de doações de sangue, em que o doador doa apenas um dos componentes do sangue.

O procedimento dá direito a atestado médico?
Sim, é garantido o afastamento do trabalho no dia da doação.

O doador recebe os resultados dos exames realizados após a doação? Qual eles são?
Cada banco de sangue pode definir a forma como os resultados são entregues ao doador. No Banco de Sangue de São Paulo/GSH, que atende junto ao HCor, o doador pode verificar os resultados dos seus exames realizados por meio do site. No material doado são realizados exames que pesquisam doenças contagiosas pelo sangue, como: hepatite B, hepatite C, HIV e doença de Chagas, entre outros, além da tipagem sanguínea e da pesquisa de hemoglobinas anormais.

Um passeio pela história das vacinas: da ordenha de uma vaca no século 18 ao imunizante de RNA contra a Covid-19

As vacinas aplicadas hoje no combate à pandemia são de três tecnologias diferentes – todas, eficazes

Em 1979, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a varíola estava erradicada no mundo, uma conquista que só foi possível pelo emprego massivo da vacinação. Mas essa história começou quase dois séculos antes, quando o médico britânico Edward Jenner resolveu testar um dito popular de que ordenhadores não pegavam a doença. Ao aplicar num garoto o pus retirado de uma das mãos de uma camponesa, ele ativou o sistema imunológico da criança contra a varíola.

“Hoje, um procedimento como esse seria inconcebível”, afirma o médico Gustavo Lenci, cardiologista do Hospital Marcelino Champagnat, de Curitiba, e estudioso da história das vacinas. De fato, não seria admitido hoje uma experimentação tão rudimentar. De todo modo, ficou o marco histórico. Mas, principalmente, o aprendizado do princípio de estimular antecipadamente o sistema imunológico humano a se proteger contra uma ameaça futura.

Do século 18 para cá, com os avanços médicos e tecnológicos, os imunizantes se desenvolveram e se diversificaram. Depois do primeiro modelo, surgiram versões com vírus enfraquecidos, capazes de prevenir doenças como caxumba, rubéola, febre amarela e sarampo. Depois, foram desenvolvidos imunizantes com vírus inativos – isto, é mortos – ou partículas virais, capazes de prevenir males como tétano, hepatites A e B, meningite e HPV.

Mais recentemente, surgiram as vacinas de vetores virais, que “fantasiam” um vírus inofensivo com características do vírus que se deseja combater para que o organismo humano aprenda a se defender com segurança do real inimigo. E, de última tecnologia, as vacinas de RNA mensageiro estimulam a produção no corpo humano de proteínas do vírus a ser combatido. O imunizante da Pfizer, já aplicado no Brasil contra a Covid-19, faz uso dessa tecnologia. A Coronavac, por sua vez, funciona com vírus inativados. Já a vacina AstraZeneca, assim como a Sputnik e a Janssen, que também devem ser usadas no país, são produzidas com vetores virais.

São tecnologias diferentes, o que não significa que deve haver preferência do cidadão por qualquer uma delas em específico. “No contexto da pandemia, não é o caso de escolher. Se quisermos voltar à normalidade, é preciso que o máximo de pessoas seja vacinado o mais rápido possível”, ressalta Gustavo Lenci. Todas as vacinas aplicadas hoje contra a Covid-19 no Brasil foram exaustivamente testadas e são consideradas seguras e eficazes.

ECMO: a terapia com “pulmão externo” que tem salvado vítimas graves da pandemia

Criado na década de 1970, o tratamento requer equipamentos específicos e equipe multidisciplinar 

A Covid-19 é uma doença que acomete todo o organismo, mas os pulmões costumam ser os órgãos mais comprometido. Em casos mais graves, a inflamação pode causar falência pulmonar e morte. Indicada para pacientes com disfunção pulmonar ou cardiopulmonar graves, a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO, na sigla em inglês) tem se tornado mais conhecida na pandemia. Por meio dela, é possível substituir, por um tempo limitado, a função pulmonar enquanto a doença de base é enfrentada.

A ECMO é um tratamento de suporte complexo, que requer equipamentos específicos e equipe multidisciplinar, como explica a médica coordenadora do programa de ECMO e da Cardiologia Pediátrica da Rede Mater Dei, Marina Pinheiro Rocha Fantini. No entanto, não se trata de uma tecnologia nova. A ECMO foi realizada pela primeira vez em 1971, em Michigan, nos Estados Unidos. Atualmente, 50 anos após sua descoberta, a terapia vem trazendo esperança às vítimas graves do novo coronavírus e suas variantes.

A terapia funciona por meio da introdução de uma cânula em uma veia calibrosa do paciente. O sangue é drenado por uma bomba e direcionado à uma membrana oxigenadora, que funciona como um pulmão artificial. Ali, são realizadas trocas gasosas essenciais à vida: o sangue recebe oxigênio ao mesmo tempo em que se retira dele gás carbônico. O sangue de qualidade é então devolvido ao paciente através de outra cânula, também inserida em uma veia calibrosa.

A ECMO só é indicada quando o paciente não responde às medidas clínicas habituais, apresenta doença de caráter reversível e, claro, quando o caso não apresenta qualquer tipo de contraindicação. O tratamento não é indicado a idosos com mais de 70 anos, pessoas com sequelas neurológicas, pacientes oncológicos sem perspectiva de cura e indivíduos que não podem receber anticoagulantes, entre outras.

“Esta não é uma terapia utilizada em todos os pacientes que estão acometidos pela Covid-19, pois é complexa e gera riscos. Considera-se que a taxa de mortalidade dos pacientes submetidos ao procedimento fica entre 40% e 50%. Então, a ECMO a só se justifica quando estamos diante de um paciente que tem uma chance maior do que 60% de falecer”, explica Fantini.

Além disso, a médica reforça a importância da capacitação dos profissionais para a segurança do procedimento: “A equipe precisa ser multidisciplinar – cirurgiões, intensivistas, enfermeiros, fisioterapeutas e cardiologistas, todos especialistas em ECMO e certificados para cuidar destes pacientes”, afirma.