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Em tempos de pandemia, compreenda a relação direta entre alimentação e imunidade

Num momento em que se fala tanto sobre saúde, um tema correlato é essencial: alimentação. Para o Dia Nacional de Saúde e Nutrição, 31 de março, o Saúde da Saúde conversou com a nutricionista Paula Elisa Oliveira, líder assistencial de Nutrição Clínica do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre. Nesta conversa, ela explica a relação dos hábitos de alimentação com imunidade, raciocínio, memória, funcionamento do corpo e qualidade do sono. Paula Elisa também comenta os hábitos alimentares do brasileiro e o que pacientes com Covid-19 devem comer, caso permaneçam em casa ao longo de sua recuperação.

Saúde da Saúde – Qual é a relação entre alimentação e imunidade?

Paula Elisa – Está muito clara a relação da alimentação na modulação de nosso sistema imunológico. Quanto mais saudável e variada for a alimentação, com mais alimentos in natura e menos industrializados e ultraprocessados, melhor para nossa imunidade. Micronutrientes, como as vitaminas, têm papel fundamental nesse processo. É importante também termos hábitos de vida saudáveis, como a prática de atividades físicas, e lembrar que não será em duas ou três semanas, após um longo período de uma alimentação errada, que vamos modular o sistema imunológico.

Digestão, sono, concentração, raciocínio, memória… Uma alimentação balanceada também está relacionada ao melhor funcionamento do corpo?

A qualidade da alimentação é preditiva a todos esses aspectos. Por exemplo, quanto melhor estiver nosso peso, sem sobrepeso ou obesidade, a tendência é de que o sono seja de melhor qualidade. Em relação à memória, raciocínio e concentração, o consumo de alimentos com vitamina B12 tem relação direta com essas questões. Quanto melhor for nossa alimentação, mais fácil será a digestão e absorção de vitaminas e minerais, mantendo o corpo em equilíbrio.

Em relação à alimentação típica do brasileiro, o que seria interessante mudar?

Um prato típico nosso, o arroz com feijão, é a única combinação que oferta os 20 aminoácidos essenciais que o organismo necessita, pois não consegue sintetizá-los. De forma mais ampla, já tivemos uma evolução positiva sobre a conscientização e o consumo de alimentos in natura, como verduras e frutas. Podemos ampliar sua ingestão. Há algumas pessoas que não consomem por hábito ou dificuldade de acesso, como o custo, caso das proteínas das carnes, que têm um custo mais alto, mas que podemos intercalar nos diferentes dias da semana com o consumo de ovos, por exemplo. É importante que as carnes tenham o mínimo ou não tenham gordura aparente, pois seu consumo excessivo gera aumento de peso e doenças crônicas.

Como desenvolver melhores hábitos alimentares e consciência nutricional?

É importante que se busque menos dietas restritivas, que têm dificuldade grande de adesão, gerando estresse no indivíduo. O objetivo deve ser mudar os hábitos alimentares dentro de algo que seja factível para cada pessoa. E vem muito como uma iniciativa pessoal de cada um, devendo contar com a orientação de profissionais, como nutricionistas e endocrinologistas.

Quando procurar um nutricionista? E com que frequência isso deve ocorrer?

É algo bem subjetivo, pois existem diversas situações em que o ideal seria buscar esse profissional. Na prática, ainda não é comum, pois as pessoas têm resistência a esse acompanhamento, que segue associado com dieta, restrição e retirada de alimentos, como se fosse algo punitivo. A nutrição evoluiu muito com o passar dos anos. Hoje falamos muito em reeducação e mudança de hábitos alimentares. Ensinar as pessoas a comer de acordo com sua necessidade, acesso e aceitação. O resultado e a adesão do paciente só serão efetivos quando houver uma alimentação adequada, sem sofrimento ou grandes restrições. Quanto à frequência, dependerá da avaliação do profissional e necessidade do paciente.

Hoje, a recomendação é que pessoas com sintomas leves de Covid se cuidem em casa mesmo. Como deve ser a alimentação nesses casos?

Esses pacientes têm sintomas alimentares característicos. Podem sofrer com perda de paladar e olfato, além de dificuldade para engolir. Têm vontade de comer determinado alimento, mas não sentem sabor, ou sentem diferente, o que pode durar vários meses. Por isso, é muito comum haver perda de peso, não só pelo aumento da necessidade calórica da doença, mas pela redução do consumo, o que lhes deixa mais debilitados. Não há uma recomendação específica de alimento, vai de acordo com o que o paciente consegue tolerar e consumir. Alguns precisam de algo mais macio, por exemplo, e têm preferência por líquidos, gelados, cítricos e refrescantes. Mas, sempre que puder, deve ser uma alimentação saudável e variada, com todos os grupos alimentares. Isso, com certeza, auxiliará no tratamento e recuperação do paciente.

Endometriose: tratamentos modernos envolvem implantes hormonais e cirurgia robótica

Cerca de 50% das mulheres que não podem ter filhos têm problemas relacionados à endometriose. Quando se fala em dor pélvica crônica, o índice salta para 90%. “Trata-se de uma doença relacionada à descamação do endométrio (tecido que reveste a parte interna do útero), que se espalha para outros locais do corpo da mulher, como trompas, ovários, útero e reto, podendo atingir também o diafragma e os pulmões”, explica o ginecologista Charles Jean Berger, do Hospital Santa Isabel, de Blumenau (SC), uma referência em cirurgia robótica para endometriose.

De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a doença atinge cerca de 10% da população feminina brasileira. Mulheres jovens, entre 25 e 35 anos de idade, são as mais afetadas. O ginecologista explica que, quanto mais a mulher menstrua, mais suscetível se torna ao problema, já que a doença é causada pelo refluxo do tecido endometrial na menstruação. Mulheres com filhos, que passam fases da vida grávidas e, portanto, sem menstruar, tendem a ficar mais protegidas.

O diagnóstico se dá a partir do quadro clínico – infertilidade e dor (pélvica, ao urinar ou durante o ato sexual) – e por meio de exames de imagem, como ressonância magnética da pelve e ultrassonografia com preparo intestinal. O tratamento pode envolver implantes e medicação – oral ou injetável –, mas a indicação cirúrgica é bastante frequente.

“Hoje, o que há de mais moderno no tratamento da endometriose são os progestágenos, medicação hormonal que pode ser administrada por meio de implantáveis subcutâneos ou via por via oral”, explica Charles. “Outra abordagem bastante moderna é a cirurgia robótica minimamente invasiva”, acrescenta.

A cirurgia de endometriose é tradicionalmente realizada por meio de videolaparoscopia. O emprego de uma plataforma robótica comandada pelo cirurgião torna a cirurgia mais precisa, tendo como vantagem mais rapidez e menos dor durante a recuperação, além de menores riscos de complicações.

Medicina de família: do atendimento primário à promoção de hábitos de vida saudáveis

Para Daniela Zilioli Ávila Osório, gestora de Inovação, Valor e Acesso do Vera Cruz Hospital, o médico de família deveria ser a porta de entrada do paciente no sistema de saúde. “Idealmente, esse profissional acompanha o indivíduo do pré-natal de baixo risco ao resto da vida”, afirma. Por isso, é tido como o médico da pessoa saudável, que atua pela promoção da hábitos saudáveis.

Em dezembro do ano passado, o Vera Cruz Hospital inaugurou o Vera Cruz Cuidado Integrado, um serviço 24 horas, focado no programa de Atenção Primária à Saúde, que coloca em destaque a figura do médico de família na saúde suplementar. É uma medida estratégica. “Cerca de 50% das doenças tem causas relacionadas ao estilo de vida – é o caso da diabetes do tipo 2, muito ligada a uma alimentação desequilibrada e ao sedentarismo”, exemplifica Daniela.

Na medicina de família, a interação entre médico e paciente não se restringe ao consultório. Daniela explica que é comum contatos periódicos por vídeo ou telefone e visitas domiciliares com equipes multidisciplinares, que podem incluir enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos, entre outros especialistas. “O médico de família é capaz de resolver até 92% dos problemas de saúde.” E, junto com uma equipe multiprofissional, prepara um plano terapêutico personalizado para cada paciente, ajudando a evitar adoecimentos futuros.

Papel na pandemia

Em tempos de Covid-19, o atendimento a distância se revela especialmente oportuno. O médico de família pode orientar o paciente com sintomas leves a não sair de casa, evitando a sobrecarga do sistema saúde, o risco eventual de iatrogenia (efeito ou complicação causados durante um tratamento médico) e a possível contaminação de outras pessoas nesse deslocamento. Não é por menos que o nome completo da especialização é medicina de família e comunidade.

Outra vantagem dessa abordagem é que reduz a realização de exames de alta complexidade – em muitos casos, caros e desnecessários. Daniela dá um bom exemplo. Quando um paciente com dor de cabeça procura diretamente um neurologista, a tendência é que o médico peça uma bateria de exames para eliminar os riscos mais graves, o que pode incluir logo de cara, uma ressonância magnética.

Como atua como uma espécie de gestor do prontuário do paciente ao longo da vida, o médico de família estará mais próximo de seu histórico de saúde, suas propensões genéticas, seu momento de vida no trabalho e nos relacionamentos e das particularidades de seu organismo. A tal dor de cabeça, por exemplo, pode estar relacionada ao ciclo menstrual, simplesmente. “É uma abordagem focada na pessoa, não na doença”, sintetiza Daniela

O caso da AACD: alta de imposto paulista na saúde pode deixar pacientes sem próteses e cirurgias

Com o fim da isenção do ICMS da saúde no estado de São Paulo, em janeiro deste ano, o imposto saltou de zero para 18%, causando grande preocupação no setor. Um dos exemplos mais impactantes é o da Associação de Assistência à Criança Deficiente (AACD), como explica o superintendente de operações da instituição, Emanuel Toscano: “Nosso hospital é especializado em ortopedia, com uso intensivo de OPMEs (Órteses, Próteses e Materiais Especiais), itens frontalmente afetados pela medida”. Ele estima que a entidade sofrerá um impacto anual de mais de R$ 11 milhões.

O valor equivale a 1.370 cirurgias que a instituição realiza em seu hospital ortopédico. E também a 19.605 cadeiras de roda do modelo padrão. Mas o impacto varia de acordo com o produto ou procedimento em questão. Por exemplo: a cirurgia de escoliose, que é de altíssima complexidade e pode custar dezenas de milhares de reais, sofreu um aumento de 7% com o fim da isenção do ICMS.
Já no caso específico da oficina ortopédica da AACD, a margem, que já era negativa, registrou uma queda de 135% em atendimentos ao SUS. Essa nova realidade pode prejudicar pacientes que precisam de produtos como próteses, órteses e adaptações de cadeira de rodas, entre outros.

Por ser um hospital especializado e sem pronto-socorro, a AACD quase não sofreu de casos comunitários de Covid-19 desde o início da crise, em março de 2020. Por outro lado, a instituição, que realiza basicamente cirurgias eletivas, assistiu a uma queda de 20% no volume de procedimentos, em comparação a 2019.

A área de reabilitação foi especialmente impactada porque ficou fechada por dois meses, até ser aberta em ritmo gradual. Até hoje, por uma questão de segurança, a área funciona com intervalos entre atendimentos maiores do que os praticados antes da crise.

Por situações como essa, a instituição precisou se reestruturar para evitar um colapso financeiro. Uma das medidas adotadas foi a redução proporcional de jornadas e salários, diante da diminuição da demanda. Essa agilidade garantiu à AACD a chance de viabilizar sua estabilidade financeira ao longo do primeiro ano da pandemia.

Agora, esse equilíbrio é colocado em risco pela incidência do ICMS paulista. “Estamos preocupados com os custos e com a viabilidade de certas operações. É possível que a gente tenha dificuldade em alguns procedimentos realizados pelo SUS, o que pode afetar diretamente as vidas das pessoas que dependem desse atendimento, apesar das negociações que estamos fazendo para minimizar esse impacto. O ideal seria que os hospitais filantrópicos, como a AACD, tivessem a mesma regra utilizadas para as Santas Casas, que foram poupadas dessa alta do ICMS”, afirma Emanuel.

Dieta cardioprotetora: entenda quais alimentos fazem bem ao coração – e quais é melhor reduzir ou evitar

Fator de risco para diferentes tipos de doenças, das cardiovasculares ao câncer, a obesidade não para de crescer. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a proporção de obesos na população acima de 20 anos mais que dobrou no Brasil entre 2003 e 2019, passando de 12,2% para 26,8%. Nas mulheres, o índice subiu de 14,5% para 30,2% e, nos homens, de 9,6% para 22,8%, nesse período. Uma alimentação balanceada, adaptada à cultura brasileira, pode ser a chave para combater a obesidade e prevenir, em especial, problemas cardíacos.

“O segredo da alimentação cardioprotetora não é restringir o cardápio, mas estimular o consumo balanceado de alimentos mais ou menos cardioprotetores. Alguns promovem maior redução do peso, colesterol e glicemia, enquanto outros, se consumidos em excesso, podem levar ao aumento do colesterol, por exemplo”, explica Ângela Bersch, nutricionista e pesquisadora do maior estudo de nutrição clínica já realizado no Brasil pelo HCor, de São Paulo.

A Alimentação Cardioprotetora Brasileira foi criada pelo Instituto de Pesquisa e pela equipe de nutrição do HCor, em parceria com o Ministério da Saúde. O modelo do programa é inspirado na dieta mediterrânea, que preconiza o consumo de peixes, azeite de oliva e vinho. Mas o cardápio abrange opções acessíveis à população brasileira, considerando diferenças regionais e culturais.

Modelo da bandeira

Nesse programa, os alimentos são divididos em grupos, de acordo com as cores da bandeira do Brasil. Frutas, verduras, legumes, feijão, leite e iogurte desnatado, por exemplo, estão no grupo verde, a cor mais presente na bandeira. São considerados os alimentos mais cardioprotetores, ou seja, que contêm nutrientes que protegem o coração, como antioxidantes, fibras, vitaminas e minerais, bem como não têm quantidades elevadas de calorias, gorduras, sal e açúcar.

Já o grupo amarelo, segunda cor mais presente na bandeira brasileira, reúne alimentos que devem ser consumidos com moderação, por se tratarem de alimentos com mais calorias, mas que fornecem energia para o dia a dia. Estão nesse grupo alimentos como macarrão, pães e óleos.

Por fim, no grupo azul, menos presente na bandeira, estão os alimentos que têm mais gordura saturada, colesterol e sódio, e que devem ser consumidos em menor quantidade ao longo do dia. Nele, estão as carnes, ovos, manteiga, queijos e doces caseiros, como pudim e brigadeiro.

Os alimentos ultraprocessados compõe o grupo vermelho – cor ausente na bandeira. São produtos que passam por uma série de modificações industriais e levam em sua formulação ingredientes como edulcorantes, conservantes e estabilizantes, além de elevadas quantidades de açúcar e sal. O consumo desses alimentos não é recomendado e está associado ao ganho de peso e a impactos negativos para saúde no longo prazo.

Saiba mais
Está disponível no YouTube um debate intitulado Alimentação Cardioprotetora na Prevenção e no Tratamento da Obesidade, com a participação de especialistas. Assista em bit.ly/dietacardio

Fonte: edição do texto original do HCor.

Câncer: as vantagens do aconselhamento genético e da biópsia minimamente invasiva

Hoje, 4 de fevereiro, é Dia Mundial do Câncer, uma iniciativa global da União Internacional para o Controle do Câncer (UICC) com o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o tema #IAmAndIWill (#EuSoueEuVou), a campanha tem como objetivo aumentar a conscientização sobre a doença, além de influenciar a mobilização de governos e indivíduos. Hoje, grandes tendências na área são o aconselhamento genético e a biópsia minimamente invasiva.

Atualmente, 7,6 milhões de pessoas morrem de câncer a cada ano. Estima-se que 1,5 milhão de mortes anuais poderiam ser evitadas com medidas adequadas. De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), no Brasil, para o sexo masculino, os tipos de câncer mais preponderantes atualmente são os de próstata, intestino e pulmão. Para as mulheres, os mais comuns são câncer de mama, intestino e colo de útero. O câncer pode acometer indivíduos de qualquer idade, mas é mais comum na faixa dos 60 aos 79 anos.

O oncologista Lucas Sant’Anna, do Onco Center Dona Helena, de Joinville (SC), explica que o câncer ocorre quando células do organismo passam a se dividir de forma descontrolada e adquirem ainda capacidade de invadir outras estruturas do corpo, em razão de uma alteração no DNA. Isso pode ocorrer por diversos fatores – alguns, relacionados ao estilo de vida. Por isso, a prevenção também está relacionada a hábitos saudáveis, como praticar exercícios regularmente, evitar consumo excessivo de álcool e o tabagismo, além de manter uma alimentação balanceada.

Mas não é só: a genética também conta. “Defeitos em certos genes podem elevar risco de alguns tipos de câncer, assim como algumas características individuais também podem elevar este risco, como a cor de pele – a branca pode ser fator de risco para o câncer de pele e a negra para câncer de próstata”, exemplifica Sant’Anna.

A oncogenética estuda os aspectos moleculares, celulares, clínicos e terapêuticos de síndromes de predisposição ao câncer. “O objetivo principal é identificar portadores de defeitos genéticos que aumentariam as chances do indivíduo desenvolver câncer e, então, atuar de forma preventiva para reduzir o risco, por meio de exames de rastreamento, cirurgias preventivas e/ou terapias”, afirma o oncologista.

Durante a investigação da suspeita de câncer, o médico pode solicitar uma biópsia de um nódulo detectado em exames. Procura-se hoje dar preferência a tratamentos minimamente invasivos, como a biópsia percutânea, sem necessidade de cirurgia, que pode ser realizada em pacientes de todas as idades. “Por meio de exames de imagem, como ultrassom e tomografia computadorizada, conseguimos localizar a lesão e retirar fragmentos por meio de uma agulha”, ilustra o radiologista Bruno Miranda, especialista em diagnóstico por imagem e medicina intervencionista da dor.

A técnica é feita com anestesia local e, em geral, sem sedação. A liberação do paciente ocorre, no mais tardar, depois de algumas horas em observação. “É um procedimento bastante seguro. Normalmente, o paciente não sente dor, ou sente muito pouca, e é liberado sem nenhuma intercorrência.”

(Fonte: edição do texto original do Onco Center Santa Helena.)

Doenças de verão: para além da Covid-19, confira cuidados importantes a tomar no calor

Para o setor da saúde, Covid sozinha não faz verão. Diversos males típicos da estação também requerem atenção, como queimaduras solares, insolação, micoses, infecções gastrointestinais e arboviroses, como a dengue, entre outros, conforme enumera a médica Márcia Ladeira, coordenadora da emergência do hospital Barra D’Or, do Rio de Janeiro. Leia a entrevista a seguir para entender melhor as causas e encaminhamentos de cada caso.

Saúde da Saúde: O que muda neste verão pandêmico em relação aos anteriores?
Márcia Ladeira: O verão é uma estação propícia ao lazer e a atividades externas, que podem gerar aglomerações indesejadas em um momento de pandemia. Se não pudermos ficar em casa, o local mais seguro, é possível frequentar piscinas e mares desde que os cuidados recomendados sejam seguidos, como respeitar distâncias superiores a 2 metros e evitar entrar na água em caso de aglomeração. Além disso, o compartilhamento de alimentos, bebidas e equipamentos como guarda-sóis e brinquedos deve ser evitado.

E quanto aos cuidados típicos de verão?
Não podemos esquecer dos cuidados de praxe, como hidratação, alimentação leve e saudável e exposição controlada ao sol com uso de protetores solares e chapéus, para equilibrar o benefício da ativação da vitamina D com a exposição a raios ultravioleta – e consequente risco de câncer de pele.

A quais doenças típicas do verão é preciso ficar atento?
Várias. As diarreias podem estar associadas ao calor e à má conservação dos alimentos. A otite externa, por exposição a água de praia ou piscina, e a conjuntivite, por irritação química ou infecções também ocorrem mais no verão, são outros exemplos. Não podemos nos esquecer das arboviroses – dengue, zika e chikungunya, transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, que se reproduz com maior facilidade no calor e na chuva. Além da desidratação, causada pelo calor e sudorese excessivos, que afeta com maior frequência crianças e idosos. A insolação, que ocorre quando a temperatura do organismo passa dos 40 graus, também costuma se instalar quando se passa muito tempo ao sol sem proteção. Por fim, várias doenças de pele, como as queimaduras e micoses superficiais, também ocorrem mais frequentemente agora.

E quanto às micoses?
As micoses superficiais são doenças fúngicas causadas pelo calor e umidade típicos desta estação, que favorece a reprodução desses organismos. Os fungos podem acometer não somente a pele, mas também as unhas e a região entre os dedos. A prevenção desses problemas se dá por meio do uso de protetores solares e chapéus, hidratação abundante, alimentação saudável, exposição solar criteriosa, entre outros cuidados.

O melhor é optar por teleconsultas neste período?
A telemedicina é um recurso cada vez mais usado no Brasil e no mundo, tendo obtido destaque na pandemia de Covid-19. Estimativas mostram que até 70% dos atendimentos nas grandes emergências poderiam ter resolução ambulatorial. Com a telemedicina os hospitais podem promover atendimento remoto de pacientes, romper barreiras geográficas, ampliar o acesso a especialistas e até mesmo reduzir filas para atendimento. Além disso, evitar idas desnecessárias ao hospital, principalmente ao pronto-socorro, pode reduzir a exposição de um paciente de maior risco ao Sars-Cov 2, vírus causador da Covid-19.

Quando ir ao pronto-socorro?
Os exemplos principais são: dor torácica, principalmente se em aperto ou associada a suor frio e palidez (pela possibilidade de um infarto agudo do miocárdio); perda súbita de força em um lado do corpo ou da face, associados ou não a confusão mental e dor de cabeça (pela suspeita de um acidente cerebro-vascular); e febre associada a falta de ar ou sensação de desmaio (pelo risco de uma pneumonia ou infecção generalizada). Além disso, pacientes com quaisquer sintomas que não tenham sido resolvidos com medicações de uso habitual devem ser levados ao hospital, em especial na avaliação de pacientes potencialmente graves, com doenças de base como insuficiência cardíaca, câncer, enfisema, e quando um exame físico for absolutamente necessário para esclarecimento diagnóstico.

Janeiro Branco: no encerramento do mês, uma reflexão sobre saúde mental na pandemia

Neste ano, foi realizada em todo o território nacional a oitava edição de uma grande campanha por conscientização sobre sanidade mental. Ao estilo de outras iniciativas associadas a cores como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, o Janeiro Branco (uma alusão ao início do ano como uma “página em branco” a ser preenchida) busca chamar a atenção para as questões relacionadas à saúde mental e emocional das pessoas, individualmente e nas instituições.

É um momento oportuno. De acordo com a médica Claudia Panfilio, neurologista do Pilar Hospital, de Curitiba, a quantidade de pacientes que chegavam aos consultórios com quadros de ansiedade e depressão no final de 2020 e início de 2021 foi aproximadamente 3 vezes maior que no mesmo período anterior.

“O ano passado foi de grandes mudanças e adaptações. Alguns viveram conflitos domésticos, desemprego, medo da morte ou, como nós da saúde, sobrecarga de trabalho. Alguns ficam relembrando saudosamente o passado, outros paralisados aguardando um futuro sem restrições. Isso ativa negativamente no cérebro um círculo vicioso”, alerta Claudia. “O segredo está em viver bem o presente, qualquer que seja ele. Achar alegria em cada coisa como estar com os filhos, elogiar o parceiro, preparar um almoço – aprender com tudo”, afirma.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o segundo país das Américas com maior número de pessoas depressivas: 5,8% da população. Ou seja, perde por muito pouco para os EUA, com 5,9%. O estudo também afirma que o Brasil é ainda o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%.

Fatores genéticos e externos colaboram com este panorama, segundo a neurologista. “Sabemos que algumas pessoas têm predisposição genética à depressão e ansiedade. As incertezas sociais também agravam o quadro. Acredita-se que o Brasil tenha um dos maiores índices de ansiedade do mundo devido à pobreza, ao desemprego e à violência”, avalia.

Ao mesmo tempo, Cláudia destaca: “A ciência também prova que atitudes mentais e físicas mais positivas ativam circuitos neuronais que ampliam a capacidade de raciocínio, criatividade e, sobretudo, o sistema de recompensa, gerando um bem-estar muito mais sólido e duradouro.”

A neurologista é enfática ao afirmar que é necessário buscar pensamentos e atitudes positivas, como uma forma de autocuidado no segundo ano pandêmico que se inicia. “Podemos ser felizes presos em casa ou trabalhando na linha de frente? Claro que sim! Tentar fugir do presente revivendo o passado ou só pensando no futuro, ou, pior ainda, alterando a consciência com álcool não traz paz nem felicidade.”

Para a médica, a melhor estratégia é fazer justamente o contrário: ampliar a consciência sobre o que se vive aqui e agora.

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Burnout: problema das instituições, não das pessoas

Como controlar o estresse na pandemia

Estratégias para ajudar idosos em isolamento

O cuidado com a saúde mental das crianças na pandemia

 

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Volta às aulas: orientações de especialistas para minimizar os riscos

A partir de fevereiro, as aulas presenciais passam a ser retomadas em alguns estados brasileiros – para algumas escolas particulares, a volta ocorre já no final de janeiro. A iniciativa, mesmo que gradativa, ainda divide a opinião dos pais, tendo em vista que os casos de contaminação e morte por Covid-19 voltaram a aumentar no país em ritmo acelerado. Este texto reúne orientações de especialistas sobre as principais medidas preventivas, que envolvem triagem de sintomas, protocolos de higiene, orientação e participação da família.

Para início de conversa, a pediatra Gabriela Murteira, do Vera Cruz Hospital, de Campinas, adverte que muitos pais demonstram preocupações baseadas em notícias falsas e dados não científicos. “Este é o momento de disseminarmos informações de qualidade, pois o prejuízo dessas crianças sem acesso às aulas essenciais é muito maior do que o risco que elas possam correr. Estudos mostram que o risco dessas crianças na escola não é maior do que na comunidade”, defende.

A médica reforça ainda que a volta à sala de aula é facultativa. “Ninguém é obrigado a retornar neste momento. Se você faz parte de uma família 100% isolada e considera melhor permanecer assim, tudo bem. Mas não adianta deixar as crianças em casa enquanto os pais voltam para os escritórios, oferecendo os mesmos riscos à família”, pondera. Para Gabriela, os protocolos de segurança, redução no número de alunos e bolhas sociais que vão isolar grupos específicos são algumas das medidas de garantia.

O uso da máscara, entretanto, é obrigatório apenas para maiores de 12 anos. “Até cinco anos, o uso não é sequer indicado, e essa regra permanece mesmo com o retorno das aulas. Já para as crianças de seis a 11 anos, a decisão é facultativa”, reforça. “Tivemos muita procura por orientação nos últimos dois meses. Indicamos que as famílias avaliem o risco e entendam que se trata de um compartilhamento de responsabilidades.”

Para a pediatra, a suspensão das aulas presenciais teve um papel importante na redução de casos da Covid-19, diminuindo a circulação e desafogando o sistema de saúde. Mas, agora, os prejuízos psicológicos e educacionais de permanecer em casa podem se tornar um problema. “Temos recebido muitos pacientes com crise de ansiedade, ou seja, estão surgindo consequências de um isolamento que já pode, com todas as regras e os protocolos, ser interrompido parcialmente.”

A médica alerta ainda para o risco de se baixar a guarda diante da chegada da vacina. “É importante afirmar que, apesar de trazer respiro, a imunização tem como principal objetivo reduzir as internações, a gravidade dos casos e as mortes. Mas até que tenhamos uma vacinação em massa, não devemos mudar os nossos hábitos e cuidados diários”, orienta.

Consciência coletiva

Para o médico infectologista Leonardo Ruffing, também do Vera Cruz, a nova realidade requer certas medidas, como: notificação no caso de sintomas dos alunos ou familiares; não negligenciar nenhum quadro febril, mesmo que leve; pensar no coletivo; manter protocolos de higiene, como troca diária do uniforme, higienização completa assim que chegar em casa e diálogo da escola com os pais, além de testagem periódica dos funcionários.

Outro alerta diz respeito ao cuidado com brinquedos coletivos nos espaços de educação. O ideal é que cada criança tenha o seu e que ele seja higienizado com bastante frequência. “Sugerimos ainda as atividades ao ar livre, principalmente nos casos de pré-alfabetização”, frisa o médico.

De maneira geral, crianças não correm grandes riscos, mas são vetores da doença e é preciso levar isso em conta. “Ainda estamos ponderando riscos e benefícios. Nenhum tipo de coletividade é 100% segura, mas em países como a Alemanha, por exemplo, a educação vem sendo considerada serviço essencial”, diz Leonardo. Há de se levar isso em conta.

(Fonte: Edição de texto original do Vera Cruz Hospital)

Distanciamento social: como o cérebro rastreia os seus passos e das pessoas ao redor

Em tempos de pandemia, um estudo revela que o cérebro humano está mais atento do que se imaginava a aglomerações. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) constataram que, quando você divide um ambiente com outros indivíduos, diferentes padrões de ondas cerebrais monitoram o movimento das pessoas ao redor, ajudando você a encontrar lugares mais vazios ou mesmo evitar uma colisão involuntária.

“Nossos cérebros criam uma assinatura universal para nos colocar no lugar de outra pessoa”, explica a neurocirurgiã Nanthia Suthana, autora do estudo publicado pela revista Nature. Nanthia e uma equipe de pesquisadores observaram pacientes com epilepsia, cujos cérebros tiveram eletrodos implantados cirurgicamente para controlar convulsões. Os eletrodos foram alocados no lobo temporal medial, o centro do cérebro ligado à memória e que pode ser o responsável por controlar a navegação do indivíduo, como um GPS do corpo.

Pesquisas realizadas com roedores já haviam mostrado que ondas de baixa frequência eram geradas em neurônios do lobo temporal medial para ajudar esses animais a manter o controle de seu deslocamento. Para verificar se o conceito valeria também para seres humanos, os cientistas criaram uma mochila especial, contendo um computador capaz de se conectar, via wireless, aos eletrodos cerebrais. Os equipamentos foram entregues aos pacientes, permitindo que os pesquisadores acompanhassem a variação das ondas enquanto se movimentavam livremente.

Durante o experimento, cada paciente carregou a mochila e foi instruído a explorar uma sala vazia, encontrar um local escondido e lembrá-lo para futuras buscas. Enquanto caminhavam, a mochila registrava suas ondas cerebrais, movimentos dos olhos e caminhos pela sala em tempo real.

Conforme vasculhavam a sala, suas ondas cerebrais fluíam em um padrão distinto, sugerindo que os seus cérebros haviam mapeado as paredes e outros limites. Curiosamente, as ondas cerebrais s também fluíram de maneira semelhante quando eles se sentaram em um canto da sala e viram outra pessoa se aproximar do local. A descoberta implica que o cérebro produz o mesmo padrão para rastrear não apenas os próprios passos, mas também os de outras pessoas em um ambiente compartilhado.

A autora do estudo explica por que esta descoberta é importante: “As atividades cotidianas exigem que naveguemos constantemente em torno de outras pessoas quando estamos no mesmo lugar. Considere escolher a fila de segurança mais curta do aeroporto, procurar uma vaga em um estacionamento lotado ou evitar se esbarrar em alguém na pista de dança”, afirma Nanthia.

No atual contexto de pandemia de Covid-19, em que o distanciamento social é a melhor estratégia de prevenção enquanto as vacinas não chegam, esse recurso é mais que oportuno.

(Fonte: Edição do texto original de Frederico Cursino, da Agência Einstein)