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Distanciamento social: como o cérebro rastreia os seus passos e das pessoas ao redor

Em tempos de pandemia, um estudo revela que o cérebro humano está mais atento do que se imaginava a aglomerações. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) constataram que, quando você divide um ambiente com outros indivíduos, diferentes padrões de ondas cerebrais monitoram o movimento das pessoas ao redor, ajudando você a encontrar lugares mais vazios ou mesmo evitar uma colisão involuntária.

“Nossos cérebros criam uma assinatura universal para nos colocar no lugar de outra pessoa”, explica a neurocirurgiã Nanthia Suthana, autora do estudo publicado pela revista Nature. Nanthia e uma equipe de pesquisadores observaram pacientes com epilepsia, cujos cérebros tiveram eletrodos implantados cirurgicamente para controlar convulsões. Os eletrodos foram alocados no lobo temporal medial, o centro do cérebro ligado à memória e que pode ser o responsável por controlar a navegação do indivíduo, como um GPS do corpo.

Pesquisas realizadas com roedores já haviam mostrado que ondas de baixa frequência eram geradas em neurônios do lobo temporal medial para ajudar esses animais a manter o controle de seu deslocamento. Para verificar se o conceito valeria também para seres humanos, os cientistas criaram uma mochila especial, contendo um computador capaz de se conectar, via wireless, aos eletrodos cerebrais. Os equipamentos foram entregues aos pacientes, permitindo que os pesquisadores acompanhassem a variação das ondas enquanto se movimentavam livremente.

Durante o experimento, cada paciente carregou a mochila e foi instruído a explorar uma sala vazia, encontrar um local escondido e lembrá-lo para futuras buscas. Enquanto caminhavam, a mochila registrava suas ondas cerebrais, movimentos dos olhos e caminhos pela sala em tempo real.

Conforme vasculhavam a sala, suas ondas cerebrais fluíam em um padrão distinto, sugerindo que os seus cérebros haviam mapeado as paredes e outros limites. Curiosamente, as ondas cerebrais s também fluíram de maneira semelhante quando eles se sentaram em um canto da sala e viram outra pessoa se aproximar do local. A descoberta implica que o cérebro produz o mesmo padrão para rastrear não apenas os próprios passos, mas também os de outras pessoas em um ambiente compartilhado.

A autora do estudo explica por que esta descoberta é importante: “As atividades cotidianas exigem que naveguemos constantemente em torno de outras pessoas quando estamos no mesmo lugar. Considere escolher a fila de segurança mais curta do aeroporto, procurar uma vaga em um estacionamento lotado ou evitar se esbarrar em alguém na pista de dança”, afirma Nanthia.

No atual contexto de pandemia de Covid-19, em que o distanciamento social é a melhor estratégia de prevenção enquanto as vacinas não chegam, esse recurso é mais que oportuno.

(Fonte: Edição do texto original de Frederico Cursino, da Agência Einstein)

Terapia celular: reforço no tratamento de casos graves de covid-19

Um estudo brasileiro apresenta resultados preliminares animadores para o tratamento da insuficiência respiratória aguda causada pelo coronavírus. Iniciado em Salvador, no Centro de Biotecnologia e Terapia Celular do Hospital São Rafael, o trabalho é fruto de muitos anos de pesquisa e envolvimento de dois grupos de pesquisa de referência na área de medicina regenerativa no Brasil, um liderado pelo médico Bruno Solano, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e outro comandado pela médica Patrícia Rocco, do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ.

O poder das chamadas células tronco mesenquimais (MSCs) no tratamento de doenças oncológicas, medulares, degenerativas, entre outras, já é amplamente conhecido: com capacidade de autorrenovação e diferenciação, elas se transformam em diferentes células que compõem tecidos do corpo. Agora,  também podem representar uma esperança para o tratamento de pacientes com quadros graves de covid-19. O Saúde da Saúde conversou com o médico Bruno Solano sobre a pesquisa:

O que são as MSCs?
 
Bruno Solano – São células-tronco que podem ser obtidas de tecidos adultos, como a medula óssea e o tecido adiposo, ou perinatais, como o tecido do cordão umbilical. Estas células têm propriedades terapêuticas pois são capazes de reconhecer e responder a ambientes de lesão, estimulando o controle da inflamação e processos de regeneração e reparo. Suas ações decorrem do conjunto de moléculas e das vesículas extracelulares que essas células liberam no ambiente lesionado. Podemos utilizar terapeuticamente tanto as células como as vesículas, que carregam mediadores importantes para a resolução da inflamação e ativação de processos de reparo.
Como poderiam ser úteis em males decorrentes da pandemia?
Acreditamos que a administração de MSCs e vesículas possa ter um papel no tratamento dos casos graves da covid-19, com hiperinflamação e lesão no tecido pulmonar, além de comprometimentos sistêmicos. Dados preliminares têm demonstrado a capacidade de imunomodulação dessas células e no controle de marcadores de resposta inflamatória. Elas também exercem atividade anti-fibrose e podem contribuir para a recuperação dos pacientes com danos pulmonares decorrentes da covid-19 e do tempo prolongado de ventilação mecânica.
Qual é o formato da pesquisa? 
A primeira etapa foi um estudo piloto envolvendo dez pacientes, que já foi finalizado. Estamos agora na etapa de análise de dados. Os pacientes receberam as MSCs em diferentes doses com foco no monitoramento de segurança e na evolução clínica dos pacientes. Os dados deles são acompanhados pela Anvisa.
Quais são os possíveis riscos e efeitos colaterais envolvidos? 
O maior temor da injeção de MSCs por via endovenosa é o risco de indução de coagulação e eventos tromboembólicos, que podem ser minimizados com o uso de anticoagulação, com o adequado controle de qualidade do processo de produção das células e com a utilização de doses seguras.
Em caso de eficácia comprovada, em quanto tempo o tratamento estará disponível para pacientes fora da pesquisa?
Tudo dependerá primeiro do cumprimento do processo regulatório e da comprovação de segurança e eficácia do tratamento. Caso os resultados sejam positivos, tenho certeza de que não haverá dificuldade em buscar parcerias para viabilizar a terapia para um maior número de pacientes.
Será um tratamento caro? 
Trata-se de um produto terapêutico de alta complexidade e, portanto, o custo de produção em boas práticas é elevado. No entanto, espera-se que ocorra uma redução de custo com o ganho de escala de produção, caso a terapia venha a ser amplamente disponibilizada.

Ester Sabino: “Não há motivos para achar que a vacina não irá funcionar”

Em fevereiro de 2020, a imunologista Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP e cientista do Instituto Adolfo Lutz e da Universidade de Oxford, anunciou um feito e tanto para a comunidade científica: apenas dois dias após a confirmação do primeiro caso da Covid-19 em território nacional, o grupo liderado pela médica e outros brasileiros já havia conseguido sequenciar o genoma do vírus. Um tempo recorde, especialmente considerando que, em outras nações afetadas, a média para decodificação do Sars-Cov-2 havia sido de 15 dias.

Seria exagero dizer que a vida de Ester Sabino mudou da noite para o dia. Mas o fato é que, em 48 horas, a cientista alcançou um status inédito em mais de três décadas de carreira. À frente de trabalhos importantes na área de imunologia, contribuiu para o avanço dos estudos sobre a Doença de Chagas e ainda participou dos primeiros sequenciamentos dos genomas do HIV e do Zika Vírus no Brasil – este último lhe renderia inclusive um convite para uma parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Desta vez, no entanto, a repercussão ultrapassou os muros acadêmicos.

Com o mapeamento do genoma, é possível entender o percurso da transmissão e o tempo em que o vírus está circulando em determinada região, informações essenciais para a adoção de medidas de contenção. A façanha rendeu a Ester uma homenagem inesperada de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, que emprestou os traços da personagem Magali para transformá-la na cientista. “Foi (um reconhecimento) importante porque era um momento em que os cientistas vinham sendo desqualificados”, comenta. “A ciência é algo que, se você para de investir, fica difícil de retomar. Perde-se uma geração, duas…”

O convite para trabalhar com o sequenciamento do novo coronavírus chegou de forma abrupta, como a própria eclosão da pandemia. Mas Ester e sua equipe já estavam preparados. Desde 2012, o grupo do IMT-USP vinha desenvolvendo o método de identificação de genomas virais, inicialmente durante o surto da dengue naquele ano e, depois, na epidemia do zika vírus em 2016. “Mas, no caso do zika, só conseguimos concluir o sequenciamento quando a epidemia havia acabado. Então, o nosso foco foi melhorar esse timing, para conseguir trazer resultados mais cedo”, afirma.

Ester também coordena o sequenciamento do genoma de três mil pacientes de Anemia Falciforme e ainda lidera um estudo de prevalência do novo coronavírus com base em amostras de bancos de sangue. Foi nesta oportunidade que chegou a cogitar, em setembro de 2020, a possibilidade de Manaus ter adquirido imunidade de rebanho contra a Covid-19. Porém, o novo aumento de casos na capital amazonense logo no mês seguinte acabaria afastando a tese.

“As análises do banco de sangue haviam mostrado uma prevalência de 66% de contaminados, que é o valor teórico para a imunidade de rebanho para um vírus com essa característica. É um conceito teórico, não quer dizer que a epidemia acaba.” Ester acrescenta que outras capitais, como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, também apresentam índices próximos. Mas o País, no geral, ainda estaria longe da taxa necessária para a imunidade. “Outro problema é saber se eles irão se reinfectar. Pois no momento em que isso acontece, não se pode mais falar em imunidade rebanho”, afirma.

Por isso, ela reforça a necessidade da adesão total à vacina, assim que estiver disponível, como a melhor forma de se controlar a doença no País. “Estou muito otimista, porque a vacina bem funcionou em modelos animais e não há motivos para achar que ela não irá funcionar.”

(Edição da entrevista concedida a Frederico Cursino, da Agência Einstein)

Fim de ano na pandemia de Covid-19: recomendações para festas reduzidas e seguras

Grupos pequenos, de até 10 pessoas. Essa tem sido uma recomendação arbitrária para as celebrações de fim de ano em tempos de pandemia de Covid-19. Mas essa indicação, baseada no conceito de controle de danos, não dá conta de todos os riscos envolvidos. Por isso, o Hospital Israelita Albert Einstein publicou recentemente um material com recomendações mais detalhadas, elaborado pelo Centro Para Controle e Prevenção de Doenças (CDC), dos Estados Unidos.

“É importante que as pessoas tenham consciência de que todos são responsáveis pelo controle da doença e que, antes da organização de uma reunião familiar, é preciso ponderar sobre como cada um está se cuidando”, afirma Moacyr Silva Junior, médico infectologista do Einstein, em São Paulo.

Veja, a seguir, as recomendações do CDC, desdobradas em subtemas como convidados, alimentos, bebidas, viagens e pernoites, entre outros.

Pequenas reuniões de família e amigos:

Prefira reuniões pequenas, encontrando presencialmente apenas as pessoas que morem com você, compartilhe os mesmos ambientes e esteja tomando todos os cuidados para se proteger contra o novo coronavírus. Encontros pessoais que reúnem familiares ou amigos de diferentes famílias – incluindo pessoas que moram em outras residências ou cidades – apresentam vários níveis de risco para aumento da disseminação da Covid-19:

– Não devem participar dos encontros de fim de ano pessoas diagnosticadas com Covid-19, com sintomas da doença, que aguardam os resultados ou que tiveram contato com alguém com a doença nos 14 dias antes do encontro. Indivíduos que não aderiram de forma consistente às medidas de prevenção – distanciamento físico, uso de máscara contínuo, lavagem de mãos – representam mais risco do que aqueles que seguiram as medidas de segurança.

– Níveis elevados ou crescentes de casos de Covid-19 em determinadas comunidades, regiões, aumentam o risco de infecção e disseminação entre os participantes. Por isso, é importante que, antes de realizar um encontro, familiares considerem o número de casos em seus bairros e cidades e locais de procedência de seus parentes ou amigos e dos locais onde planejam se hospedar ou realizar as celebrações. Estas informações podem ser encontradas em sites das secretarias de saúde.

– Evite viagens de avião, ônibus e outros meios coletivos. Se não for possível, redobre os cuidados em aeroportos, rodoviária, paradas. Estes são pontos de grande circulação de pessoas com aumento das chances de exposição ao vírus.

– Reuniões em locais fechados, com pouca circulação de ar (ventilação) representam mais risco que do que encontros ao ar livre. Prefira a segunda opção.

– Dê preferência a encontros mais curtos e mantenha o distanciamento físico de outros participantes. Estar a menos de 2 metros de alguém com Covid-19 por um total de 15 minutos, mesmo que ela não apresente sintomas, aumenta muito o risco de adoecimento e requer quarentena de 14 dias.

Não há uma recomendação com limite de pessoas por evento. Por isso, são importantes o bom senso e o comprometimento de todos com a saúde. O tamanho das celebrações deve ser determinado com base na capacidade dos participantes de diferentes famílias ficarem distante pelo menos dois metros de outros, usarem máscaras, lavarem as mãos e usarem álcool em gel com frequência e seguirem as recomendações locais de saúde.

Alimentos e bebidas
É possível que uma pessoa se contamine com o novo coronavírus tocando uma superfície ou objeto, incluindo alimentos, embalagens de comida e bebida e utensílios de cozinha que contenham o vírus e, em seguida, toque nariz, boca e olhos. Por isso, é importante seguir as seguintes regras:
– Incentive os convidados a trazer suas próprias comidas e bebidas.
– Use máscara ao preparar e servir as pessoas.
– Limite o número de pessoas que entram e saem dos locais onde as refeições sejam preparadas, como cozinhas e churrasqueiras.
– Todos os participantes devem retirar a máscara somente quando estiverem sentados à mesa para comer e beber. Neste momento, ela deve ser guardada em um saco seco e respirável (como um saco de papel ou tecido de malha) para mantê-la limpo entre os usos. Ao se levantar da mesa, a máscara deve ser recolocada.
– Limite a aglomeração em áreas onde a comida é servida, fazendo com que uma pessoa distribua os alimentos individualmente nos pratos, sempre mantendo uma distância mínima de 2 metros da pessoa a quem está servindo. Evite bufês lotados e estações de bebidas.

Viagens e pernoites
Se a ideia é pegar a estrada, antes de fazer as malas, faça as perguntas abaixo e, se alguma delas tiver resposta positiva, a recomendação é adiar a viagem e ficar em casa. Viajar pode aumentar as chances de obter e propagar a Covid-19.

– Você, alguém da sua casa ou alguém que visitará tem maior risco de ficar muito doente  por causa da Covid-19?
– Os casos são altos ou estão aumentando em sua comunidade ou em seu destino?
– Os hospitais em sua comunidade ou destino estão sobrecarregados com pacientes que têm Covid-19?
– A sua casa ou destino tem requisitos ou restrições para os viajantes? Verifique os requisitos estaduais e locais antes de viajar.
– Durante os 14 dias anteriores à sua viagem, você ou as pessoas que está visitando tiveram contato próximo com pessoas com quem não moram?
– Seus planos incluem viajar de ônibus, trem ou avião, o que pode dificultar a permanência de 2 metros de distância?
– Você está viajando com pessoas que não moram com você?

Passar a noite fora ou hospedar familiares
Antes de dormir fora ou hospedar alguém é importante avaliar como será feita a viagem sua ou o do hóspede, se todos os cuidados preventivos foram tomados ao longo do tempo e, como serão os cuidados caso alguém adoeça. Além disso, alguns cuidados diminuem os riscos de contaminação:

– Lave as mãos com água e sabão por pelo menos 20 segundos, especialmente na chegada.
– Use máscaras enquanto estiver dentro de casa. As máscaras podem ser removidas para comer, beber e dormir, mas os indivíduos de diferentes famílias devem ficar a pelo menos 2 metros de  distância uns dos outros o tempo todo.
– Melhore a ventilação abrindo janelas e portas ou colocando ar e aquecimento centrais em circulação contínua.
– Passe algum tempo juntos ao ar livre. Faça uma caminhada ou sente-se ao ar livre a pelo menos 2 metros de distância  para interações interpessoais.
– Evite cantar ou gritar, especialmente em ambientes fechados.
Trate os animais de estimação  como faria com outros membros da família humana – não deixe os animais de estimação interagirem com pessoas fora da casa.
– Monitore anfitriões e convidados quanto a sintomas  de Covid-19, como febre, tosse ou falta de ar.
– Os anfitriões e convidados devem ter um plano sobre o que fazer se alguém ficar doente.

(Fonte: Agência Einstein)

Conahp 2020: a vacinação precisaria ocorrer antes de março para se evitar a 2ª onda no Brasil

“O timing da vacinação contra a covid-19 será crucial para se prevenir ou não uma segunda onda em 2021 – o ideal é que aconteça no hemisfério sul antes da temporada de outono-inverno”, frisou Christopher Murray durante o Conahp 2020. O pesquisador é diretor do Instituto de Métricas e Avaliações em Saúde (IHME, na sigla em inglês), localizado em Seattle, nos Estados Unidos, e foi o convidado da plenária A Importância da Mensuração e da Análise de Dados no Combate à Pandemia.

Países como o Brasil teriam uma oportunidade que a Europa não teve para prevenir a explosão da doença antes de seus meses frios. “Infelizmente, os governos não se atentam para a sazonalidade como deveriam”, disse Murray. “A motivação política para as medidas de restrição costuma surgir muito tarde, quando os hospitais já estão lotados.”

As falas de Murray ocorreram em novembro, ainda no início do que vem sendo chamado de “repique” do avanço da pandemia em alguns estados do Brasil, o que levou alguns governadores a retomarem medidas restritivas de fases anteriores. Durante a plenária, a previsão do IHME era que o país chegaria a 188 mil mortos até março de 2021, se garantida manutenção do uso de máscaras pela maioria da população e as regras de desestímulo à circulação. Não foi divulgada a projeção de mortes caso essas medidas de segurança sejam negligenciadas. Em novembro, no Brasil, a mobilidade da população, medida a partir da geolocalização dos aparelhos de celular, já era apenas 10% menor que a percebida no “antigo normal”, antes da pandemia.

Em suas previsões, o IHME considera uma série de fatores além da circulação urbana, tais como: o uso de máscaras, as medidas restritivas adotadas pelos governos, o número de testes per capta, a sazonalidade, o índice de poluição do ar, a incidência do tabagismo na população, a densidade populacional e a até a altitude da região, já que a mortalidade tende a ser menor em localidades mais elevadas em relação ao nível do mar.

Segundo Murray, o IHME previu o pico da primeira onda ao redor do mundo de forma muito efetiva, mas estimava uma desaceleração mais rápida, o que gerou um aprimoramento em seus modelos de estudo. Agora o instituto consegue fazer previsões dos números de contágio e mortes com dez semanas de antecedência com uma margem de erro de 20%, a menor de que se tem notícia na categoria. Suas pesquisas utilizam dos números de centros de monitoramento do mundo inteiro, além de dados comportamentais (autodeclarados) gerados pelo Facebook.

De acordo com o programa de pesquisas da rede social, o estado mais “mascarado” do Brasil é São Paulo, com índices de adesão que variam entre 65% e 69%, mas o melhor desempenho é o do Distrito Federal, com uma oscilação entre 70% e 74%. O estado brasileiro com menor índice de usuários que declararam usar a proteção é o Maranhão, com índice inferior a 45%. No país (entre usuários do Facebook), a hesitação em relação à vacina é relativamente baixa, variando entre 10% e 19%. Em países do Leste Europeu e da África, essa desconfiança chega a 40%.

Entenda o papel da ciência no combate à pandemia de covid-19

No momento, há cerca de 200 estudos catalogados na Organização Mundial da Saúde (OMS) para a fabricação de vacinas contra o coronavírus – em 11 deles, os testes já chegaram à fase 3. Segundo o médico imunologista Jorge Kalil, que lidera um grupo de cientistas brasileiros na corrida pela vacina, “é absolutamente fantástico que tenhamos chegado tão rápido a esses resultados”. Ele é diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo (USP) e participou da plenária sobre O Papel da Ciência e da Tecnologia no Combate à Pandemia durante a última edição do Congresso Nacional de Hospitais Privados, o Conahp 2020.

Num contexto em que a ciência sofre com campanhas de descrédito político-ideológico no Brasil e em diversos outros países, Kalil ressaltou a agilidade e a eficiência de profissionais de virologia, epidemiologia e imunologia em todo o mundo. “Os resultados dessas vacinas já aparecem em menos de um ano do surgimento da pandemia, um feito histórico”, disse. A vacina contra o ebola, em comparação, tomou cerca de 15 anos de estudos e testes até ser considerada pronta.

“O Sars-CoV-2 (como foi batizado o novo coronavírus) veio para ficar”, frisou o imunologista. “Só pode ser controlado, como o vírus da influenza.”  E as únicas maneiras de enfrentar uma pandemia passam necessariamente pela ciência: o desenvolvimento de um tratamento simples, efetivo e barato, o que ainda não existe; o estabelecimento da imunidade de rebanho, que acarretaria ainda muitos adoecimentos e mortes; e uma ou mais vacinas, a perspectiva mais razoável hoje no curto prazo.

Além dessas questões cruciais, a pesquisa da vacina brasileira em desenvolvimento pela equipe liderada por Jorge Kalil tem como objetivos  ser aplicada em dose única com método não-injetável, ter baixo custo e ser produzida com autonomia tecnológica. “É um trabalho de valor incalculável, especialmente no Brasil, onde a ciência já sofria há anos com falta de recursos, mas conseguiu se reerguer.”

Home Care: qualidade de vida para o paciente e redução de custos

O home care, ou internação domiciliar, permite a continuidade do tratamento em casa para aqueles pacientes com quadros clínicos estáveis, mas que ainda necessitam de assistência, sem depender da estrutura hospitalar.

Segundo a gerente da Atenção Domiciliar da S.O.S. Vida (BA), Cristiara Allem, uma das principais vantagens do home care se reflete na qualidade de vida do paciente, que pode ter de volta o convívio familiar e o aconchego do lar.

Além disso, a transferência para o ambiente domiciliar representa uma otimização dos recursos financeiros, afirma Cristiara. “A saúde no Brasil é cara, e a internação domiciliar é uma alternativa para melhorar a gestão destes recursos – seja na saúde suplementar, seja na saúde pública. Depois que é estabelecido um diagnóstico e um tratamento possível, é necessário desospitalizar. Por que estar dentro de um hospital sem necessidade?”, diz a médica gastroenterologista.

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgados neste ano apontam que as internações clínicas em hospitais, sem uso da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tiveram custo/dia de R$ 1.565, com gasto total de R$ 6.963 por uma média de quatro a cinco dias de hospitalização.

Pandemia

O home care tornou-se ainda importante no contexto da pandemia, afirma Cristiara. A internação domiciliar permitiu aos pacientes que precisaram passar por cirurgias, por exemplo, realizar o pós-operatório em casa, onde há menos risco de contaminação. Na outra ponta, isso contribuiu para liberar leitos hospitalares para situações de emergência.

Segundo Cristiara, o home care é um modelo de assistência que requer uma logística robusta de equipamentos, suprimentos e profissionais, além de investimento contínuo em qualidade e segurança. Também é uma área que está em constante inovação para poder realizar na residência do pacientes novos procedimentos.

“O home care está sempre se reinventando e incorporando coisas novas. A S.O.S. Vida tem entre seus valores a inovação e busca se diferenciar, realizando procedimentos que não fazia no passado. A quimioterapia, por exemplo, apesar de não ser o carro-chefe dos atendimentos, já é possível fazer em home care”, explica.

5 informações essenciais para a prevenção do câncer de mama

O Outubro Rosa é uma campanha mundial que tem como objetivo espalhar o máximo de informações sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Conhecer bem a doença é uma arma poderosa, já que os pacientes podem ter um diagnóstico mais precoce, caso venham a descobrir um tumor. Quando mais cedo é iniciado o tratamento, menos invasivo tende a ser e maiores são as chances de sucesso. 

Selecionamos abaixo cinco informações sobre o câncer de mama fundamentais para ter uma rotina de prevenção. As orientações são das ginecologista e mastologista do Hospital Santa Virgínia (HSV), Karina Belickas Carreiro e Ana Gabriela de Siqueira Santos, e da médica responsável pelo Centro de Oncologia e Infusão do hospital, Simonne Quaglia. Confira: 

1- O que causa o câncer de mama: 

O câncer de mama é causado pela multiplicação anormal de células da mama, que formam o tumor. Há diferentes tipos, que podem ter desenvolvimento rápido ou mais lento. 

2- Os principais fatores de risco: 

Desenvolver ou não um câncer de mama pode ter influência de fatores hormonais, genéticos e comportamentais. Em 80% dos casos, o tumor aparece depois dos 50 anos, mas também pode ocorrer em pacientes mais jovens – antes dos 40 anos. Os principais fatores de risco são: 

 – Obesidade e sedentarismo

– Tabagismo

– Consumo de bebidas alcoólicas

– Menstruação precoce

– Não ter tido filhos

– Primeira gravidez depois dos 30 anos

– Menopausa após os 55 anos

– Exposição à radiação

– Histórico familiar

Mulheres que tenham mãe, irmã, avó ou tia com histórico de câncer de mama – principalmente antes dos 50 anos – ou de câncer de ovário devem consultar um especialista para avaliar seu risco e decidir a melhor conduta a seguir.

3- Como se prevenir: 

Mesmo com alguns fatores de risco impossíveis de se evitar, (histórico familiar, idade da primeira menstruação e menopausa), estima-se que adotar hábitos saudáveis pode evitar cerca de 30% dos casos de câncer de mama. Veja o que pode fazer a diferença na sua rotina:

– Praticar atividade física regularmente

– Ter uma alimentação balanceada

– Manter o peso adequado

– Não fumar 

– Não consumir bebidas alcoólicas

– Amamentar

 4- Sinais de alerta 

O autoexame é uma forma de conhecer as próprias mamas e, assim, terem mais chances de notar precocemente os principais sinais de alerta de tumores. Para fazer o autoexame, é preciso inspecionar o aspecto e apalpar as mamas em busca de nódulos, preferencialmente uma semana após o período menstrual.

Se você identificar alguns dos sinais abaixo durante o autoexame, procure imediatamente um mastologista:

– Caroço fixo, endurecido e, em geral, indolor

– Alterações no mamilo (bico do peito)

– Saída espontânea de líquido dos mamilos

– Pele da mama avermelhada, retraída ou com aspecto de casca de laranja

– Pequenos caroços nas axilas ou no pescoço   

Vale ressaltar que o autoexame não substitui a avaliação clínica do médico. “As consultas e os exames de rotina devem ser realizados mesmo sem nenhum sintoma. Não espere ter alguma alteração da mama para fazer o check-up preventivo”, orientam as especialistas do Hospital Santa Virgínia.  

5- Sem medo da mamografia: 

A mamografia é um exame indicado para o rastreamento – quando não há sinais nem sintomas suspeitos – e a detecção precoce do câncer de mama. Os especialistas recomendam a realização do exame anualmente a partir dos 40 anos – ou antes, caso haja histórico de câncer de mama na família ou outros fatores de risco.

Como ajudar os idosos que estão sofrendo com o isolamento na pandemia

Os idosos são parte do grupo de risco para covid-19, o que significa que eles têm maiores chances de desenvolver a forma mais grave da doença quando contaminados pelo coronavírus. Precisam, então, manter o isolamento social rigorosamente, o que pode ter reflexos na saúde mental.

Em entrevista ao portal, a psicóloga Cláudia Cruz, da S.O.S Vida (Salvador – BA), explicou como os familiares e amigos podem ajudar os idosos a manterem o equilíbrio emocional, mesmo diante das restrições do contexto da pandemia, e também quando é necessário procurar ajuda de um profissional de saúde. Confira: 

Como o isolamento e o contexto da pandemia podem afetar a saúde mental dos idosos?

A pandemia trouxe a vivência de uma situação desconhecida, sem precedentes. Mudou abruptamente a rotina, os planos, os hábitos da população. Também gerou medo e a necessidade de adotar medidas que reduzam os risco de contaminação por uma doença altamente transmissível e potencialmente fatal. Assim, o distanciamento social, as mudanças na rotina e o estresse causado pelos cuidados necessários na prevenção e pelo excesso de informação impactam na saúde mental dos idosos e podem, ainda, agravar o quadro daqueles com doenças psiquiátricas prévias. Além disso, alguns estudos já realizados com esse grupo na quarentena evidenciaram aumento da prevalência de sintomas de estresse pós-traumático, ansiedade, depressão, irritabilidade, raiva e medo – que podem, inclusive, persistir por anos. 

Quais seriam os sinais de alerta para as famílias de que o idoso está deprimido ou ansioso por causa do isolamento?

Os sinais de alerta estão relacionados com a intensidade dos sintomas e o impacto na rotina dos idosos. É preciso buscar ajuda profissional se forem observados os seguintes sintomas por mais de duas semanas: 

  • Sentimentos de tristeza, desânimo, falta de energia, pensamento negativo, falta de esperança;
  • Mudanças significativas de comportamento, como irritabilidade, angústia, perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas;
  • Alterações no sono, como insônia ou excesso de sono;
  • Alterações no apetite, com perda ou ganho de peso;
  • Diminuição da autoestima, quando há descuido da aparência, aspecto de cansaço, de fadiga, de perda de energia;
  • Dificuldade de concentração, de raciocínio e perda de memória; 
  • Pensamento recorrente de morte, quando o/a idoso/a manifesta desejo de morrer e falta de perspectiva. 

 

Como as famílias devem agir ao identificar esses sinais?

Em primeiro lugar, se aproximar mais desta pessoa, ver de que forma podem acolher os medos dela, dar orientação e explicar por que precisamos praticar o isolamento, além de esclarecer os benefícios de seguir as medidas de proteção contra o vírus. Também é importante buscar ajuda profissional especializada caso os sintomas relatados anteriormente persistam por mais de duas semanas. 

Quais medidas práticas ajudam a evitar problemas de saúde mental nos idosos em isolamento?

  • Manter uma rotina regular e saudável, com boa alimentação e atividade física, mesmo que não seja na intensidade de antes;
  • Incluir na rotina atividades prazerosas para o/a idoso/a, como leitura, música, algo com que ele se identifique;
  • Buscar maneiras para o/a idoso/a ajudar em casa, se sentir útil ou incentivá-lo/a a buscar fazer algo que lhe dê propósito; 
  • Estimular a manutenção dos laços sociais e da interação com a família por videoconferência ou mensagens;
  • Manter o uso das medicações regulares e buscar avaliação médica, caso apareça algum sintoma novo; 
  • Acolher os medos e auxiliar nas dúvidas para que possam entender melhor o momento e se sentirem mais seguros nesse contexto de mudanças causado pela pandemia; 
  • Exercitar a espiritualidade. Estudos mostram que as pessoas que nutrem crenças têm mais equilíbrio na conexão entre mente e corpo, têm o pensamento mais positivo e reagem melhor às adversidades. A crença ajuda ainda no processo de envelhecimento saudável, pois você se conecta com algo que não é só da cognição.

Ansiedade, raiva, tristeza: 7 formas de lidar com as emoções causadas pela pandemia

A pandemia de covid-19 trouxe incertezas sobre aspectos importantes da nossa vida, como saúde e trabalho. A necessidade de isolamento para conter o coronavírus mudou drasticamente a nossa rotina, e ainda lidamos diariamente com a infinidade de informações sobre a doença e as mortes causadas por ela – que impactaram milhares de famílias. 

Tudo isso desencadeia um turbilhão de emoções como ansiedade, raiva e medo. O portal conversou com Érika Gaioso Conti, psicóloga clínica e hospitalar do Daher Hospital Lago Sul (Brasília – DF), que apontou sete medidas práticas que podem ajudar a lidar com esses sentimentos diante da nova realidade. Confira: 

Quais os sentimentos mais comuns de serem desencadeados no contexto de incerteza e isolamento durante a pandemia?

Em primeiro lugar, o medo, a tristeza, seguidos de sentimentos de impotência, insegurança, dentre outros. Vivemos um momento jamais experienciado antes, de perdas muito significativas, rupturas abruptas, de instabilidades e incertezas nas várias esferas da vida – o que exige de nós uma readaptação a este contexto atual, ainda em curso. E tudo isso é muito assustador.

Quem está mais suscetível a ter a saúde mental impactada no contexto da pandemia?

Diante da proporção do evento, pandêmico, todas as pessoas são de alguma maneira afetadas, seja no aspecto familiar, pessoal, profissional, econômico, em maior ou menor grau. Porém, aqueles que foram diretamente vitimados, que foram literalmente devastados e que enfrentam o desafio da elaboração desta experiência traumática, acredito que sejam os indivíduos mais impactados. Além de pessoas com uma estrutura psíquica mais frágil e, por isso, com maior predisposição de desenvolverem transtornos diversos.

Quais medidas práticas ajudam a manter o equilíbrio das emoções em situações como esta de pandemia?

  1. Criar formas de manter o contato com as pessoas, mesmo que não presencialmente. Reforçar os vínculos afetivos, investir numa rede de apoio, de suporte emocional;
  2. Filtrar as informações recebidas, lembrando que o acúmulo de conteúdo negativo e, muitas vezes falso, não ajuda em nada. Pelo contrário, fomenta um estado mental desfavorável ao momento atual;
  3. Investir no autocuidado, promovendo a saúde e o bem-estar pessoal através de práticas como meditação, contemplação, atividades físicas. Investir também na melhoria do sono e da alimentação;
  4. Dedicar esse tempo aparentemente perdido para realizar atividades adiadas por falta de tempo ou por outra razão qualquer: organizar, planejar, atualizar, limpar. Mantenha o corpo e a mente ocupados e produtivos;
  5. Conectar-se com a dimensão espiritual do ser, de acordo com sua crença, religião ou filosofia de vida;
  6. Ter em mente que, apesar de todas as adversidades, essa é também uma oportunidade de reavaliação, de reinvenção, de transformação e de grande aprendizado.
  7. Lembrar que, conforme a lei da impermanência, tudo passa. Esse momento também passará.