Medicina

Como a doença de Parkinson muda o dia a dia de uma pessoa?

Por afetar tantas tarefas, das domésticas às profissionais, e ser uma doença degenerativa, progressiva e ainda sem cura, o mal de Parkinson é o medo de muita gente quando o assunto é o envelhecimento. Mas os tremores ocasionados pela doença, apesar de serem um dos mais lembrados sintomas do Parkinson, não são os principais.

Sinais do mal de Parkinson

A redução da agilidade nos movimentos corporais é o mais comum dos sintomas do Parkinson. Mas um fator dificulta que esse indicativo seja notado: os mais afetados são pessoas idosas, que naturalmente apresentam maior lentidão nos movimentos, em comparação com outras fases da vida.

Como detectar a doença o mais rápido possível aumentam as chances de controlar o mal, é importante ficar atento aos sinais. O enrijecimento muscular e a dificuldade para manter uma postura de forma constante também são parte do quadro indicativo de Parkinson.

Ter atenção ao próprio corpo e seus movimentos é fundamental para que o diagnóstico seja feito antes que a condição avance. Por apresentar somente indícios clínicos, os sintomas do Parkinson muitas vezes podem passar despercebidos ou serem associados a outras condições. No caso de Ney Pereira Alves Pereira, 69, o primeiro sinal de que era parkinsoniano foi a tremedeira:

“Começou a tremer quando eu ficava em repouso. Eu estava vivendo uma situação tensa de perda de um animal, separação da mulher. 2009, 2010 e 2011 foram bem fortes, muita mudança. Eu ficava deitado, à noite, a mão esquerda começava a tremer sozinha, isso em 2008, e uma lentidão também, um arrastar nos pés. Eu fui tratado primeiro como tendo tremor essencial, aí depois que se configurou o Parkinson”.

Físico reflete no emocional

Apesar de desencadear uma série de manifestações físicas, a doença de Parkinson não abala apenas as habilidades motoras dos portadores. Como as tarefas mais corriqueiras como abotoar uma camisa e passar um café passam a demandar muito esforço ou se tornam inviáveis, o emocional também pode ficar fragilizado.

“Esse período de 2008 até 2011, foi muito tenso. Eu bebia, me separei, não tinha lugar pra ficar… Aí, no final de 2011, eu fui para o sul de Florianópolis, na pousada de um amigo, e aí as coisas foram entrando num eixo muito bom”, conta Ney.  

A vida social e profissional também podem passar por mudanças após os primeiros sintomas do Parkinson. Por ser causada, principalmente, pela morte de células cerebrais, é uma doença degenerativa e progressiva e pode comprometer habilidades requisitadas para a atuação profissional, assim como impossibilitar atividades sociais antes vistas como simples.

“Eu fui me equilibrando novamente [em Santa Catarina], porque eu também fui perdendo a capacidade de trabalhar, mas lá em Santa Catarina, as coisas foram muito boas”, declarou.

Tem tratamento

Apesar de já ter sido relatada pela primeira vez há mais de 200 anos, a doença de Parkinson ainda não teve uma cura descoberta. Mas as esperanças não podem ser perdidas, pois existem tratamentos para suavizar os sintomas.

As opções variam entre abordagens com remédios, cirurgia ou tratamentos psicológicos. Aqui, é fundamental que o portador aceite que tem a condição e, assim, prossiga para os tratamentos que seus médicos julgarem mais adequados. É possível combinar abordagens tradicionais com tratamentos alternativos também, como mostra a trajetória de Ney em busca de amenizar os sintomas.

“Hoje, estou fazendo fonoaudiologia, faço fisioterapia também, no Hospital das Clínicas, e vou começar a fazer um trabalho no instituto Lucy Montoro. São técnicas de reabilitação, com um fisiatra, uma equipe de psicólogos, tudo: terapia ocupacional, artística… Parece que é bem bom. No dia a dia ajuda, a medicação segura, né? Acalma os sintomas. A maior parte dos meus dias, parece que eu não tenho nada. Até quando eu vou na consulta do HC eu penso ‘poxa, eu não tenho nada’, porque tem gente que tem muito tremor, descontrole, cinesia. Comigo isso não acontece, eu tenho mais freezing, que é o congelamento. Por conta disso, eu quase rompi o tendão de Aquiles, mas estou em tratamento, estou usando uma bota ortopédica agora”, relata.

Mesmo encontrando tanta força para seguir recomendações médicas e, ainda, procurar alternativas, o entrevistado destaca que nada disso seria possível sem apoio de pessoas próximas. Tanto amigos, quanto filhos e até a ex-mulher, dão um suporte que para Ney é fundamental:

“Se não fosse a família e os amigos, realmente seria duro segurar isso. Porque você tem que conviver com uma sentença, né? Você tem uma doença degenerativa, não tem cura e é progressiva. Mas eu acredito que a gente pode reverter isso (…) Teve um médico que me disse assim: ‘Ney, você vai morrer com 112 anos com o Parkinson e não de Parkinson’, achei legal”, conta.