Prevenção

Fake news: como não cair nessa cilada quando o assunto é saúde

28 de setembro, 2021

Conversamos com especialistas das áreas de saúde e da imprensa para saber como identificar notícias falsas

Com a propagação desenfreada das notícias falsas, as chamadas fake news, não seria exagero colocá-las lado a lado com alguns dos males dos últimos tempos. Segundo pesquisa da Avaaz, rede de mobilização que luta por causas ao redor do mundo, nove em cada dez brasileiros viram pelo menos uma informação falsa sobre a pandemia em 2020. Ainda de acordo com o estudo, intitulado “O Brasil está sofrendo uma infodemia de Covid-19”, publicado em maio do ano passado, sete em cada dez brasileiros entrevistados acreditaram em, ao menos, um conteúdo desinformativo sobre o coronavírus.

O Saúde da Saúde conversou com especialistas das áreas da saúde e da imprensa para entender como identificar e evitar o compartilhamento de fake news.

> Entrevista com Chico Marés, coordenador de Jornalismo da Agência Lupa, especializada em fact-checking (checagem de fatos, em português)

Saúde da Saúde: Como as fake news podem impactar na saúde?
Chico Marés: Notícias falsas sobre saúde fazem com que pessoas tomem decisões sobre seu próprio bem-estar baseadas em informações erradas, o que pode levar diretamente a consequências danosas.

Nessa crise da Covid-19, temos uma infinidade de exemplos. Há pessoas que evitaram tomar vacinas, e não apenas expõem a si próprias a uma doença grave, mas comprometem a imunização coletiva. Outras (ou as mesmas) adotam comportamentos de risco, como frequentar locais com aglomerações ou não usar máscaras, porque duvidam do risco da Covid-19. Há ainda aquelas que tomam certos remédios, que como toda droga têm contraindicações e efeitos colaterais, por acreditar em coisas que leem na internet — e também adotam condutas de risco por acreditarem estar imunizadas.

Saindo da seara da Covid-19, há toda uma indústria de suplementos de saúde que utiliza depoimentos falsos de médicos e celebridades para empurrar produtos que, na melhor das hipóteses, são placebos por preços abusivos. Há, ainda, conteúdos de má qualidade sobre dietas que podem gerar falsas expectativas e até mesmo influenciar hábitos alimentares pouco saudáveis.

Saúde da Saúde: Onde buscar informações confiáveis sobre saúde?
Marés: Instituições públicas de saúde (como secretarias de saúde, por exemplo), institutos de pesquisa, universidades e associações médicas sérias (como a SBI, a AMB, ou várias outras sociedades ligadas a doenças específicas) são boas fontes sobre esse assunto. Para quem fala inglês, instituições como o CDC americano e Cancer Research UK têm ótimos guias, bem didáticos, sobre doenças específicas, especialmente câncer.

Na imprensa, vários veículos tradicionais têm boas coberturas no tema, como o G1, a Folha de S.Paulo e a BBC. Mais especificamente, acho o blog do Drauzio Varella fantástico. Há bons influenciadores, como Natália Pasternak, Átila Iamarino, Vítor Mori. Enfim, tem muitos bons lugares para ler sobre saúde — mas, claro, nada disso substitui uma consulta com um médico!

> O que dizem os especialistas em saúde: uma conversa com Maurício Abrão, coordenador de Ginecologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo

De acordo com o coordenador de ginecologia da BP, Maurício Abrão, na medicina, as pesquisas sempre estão sendo revistas para confirmação ou correção do que foi escrito no passado — e é por conta disso que se torna possível avançar em termos de diagnóstico, tratamento, cirurgia, medicação e formação médica. No entanto, com a propagação de notícias falsas, o caminho se torna o inverso.

“As fake news podem fazer com que as pessoas deixem de se cuidar e troquem medicamentos por produtos sem comprovação científica. O resultado pode ser desde um mal-estar até a morte”, alerta.

Na dúvida, a indicação é sempre procurar o seu médico. Tendo em mãos o seu histórico, como queixas, diagnósticos, exames e medicações, ele poderá confirmar o que faz sentido ou não para você. “O que é bom para o seu amigo pode não ser bom para você. A queixa médica pode ser a mesma, mas as pessoas são diferentes e, com isso, o tratamento, principalmente de saúde, deve ser específico para quem você é”.

Sobre o “Dr. Google”, o especialista não aconselha consultar a internet antes de marcar uma consulta. Segundo o médico, o ideal é obter o diagnóstico correto com profissionais de saúde. “A pessoa que sente uma dor e procura na internet vai ficar ansiosa, já que tudo o que aparece é relacionado a câncer. Gera uma ansiedade desnecessária.”

Como identificar uma notícia falsa? Confira as dicas da Agência Lupa:

– O primeiro indício é o uso de afirmações como “cura definitiva”, “100% garantido”, “totalmente eficaz”;
– Cheque a fonte, se é desconhecida ou pouco confiável. Materiais com erros flagrantes de português ou com sinais de que foi traduzido por ferramentas como Google Tradutor, por exemplo, também costumam ser falsos.
– Pergunte-se: esse conteúdo foi publicado em um site confiável? Vale fazer uma busca na internet, pois muitas vezes o primeiro resultado é de algum veículo de checagem mostrando que essa informação é falsa.
– Avise quem compartilhou: ao receber uma fake news e constatar que é falsa, avise a pessoa que te enviou para que a “notícia” não seja levada adiante.