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Especialista explica por que é seguro (e necessário!) doar sangue durante a pandemia

Os protocolos de segurança sempre foram rígidos e medidas adicionais foram implementadas nesta fase

Com a redução do número de doadores em decorrência das medidas restritivas de circulação e do receio das pessoas de se deslocar até os bancos de sangue, os estoques ficaram muito baixos ao longo da pandemia em todo o país. Mas o procedimento pode ser feito com segurança, conforme explica o médico Sérgio Vieira, líder da hematologia e coordenador do Banco de Sangue do Hospital do Coração – HCor, em São Paulo. O banco conta com a certificação diamante no Programa de Acreditação Qmentum International (IQG, na sigla em inglês), que monitora padrões de alta performance em qualidade e segurança na área de saúde e permite que as instituições acessem padrões internacionais de excelência e inovação. Confira a entrevista com o especialista:

Saúde da Saúde – Muitas pessoas deixaram de doar sangue durante a pandemia. Qual foi a consequência disso para os bancos de sangue?
Sérgio Vieira – Os tipos sanguíneos com Rh negativo foram os primeiros a faltar e os estoques de tipos sanguíneos com Rh positivo ficaram abaixo do que é considerado um nível crítico. Com isso, foi necessário um grande esforço para remanejamento de cirurgias não urgentes e outras medidas de redução do consumo de sangue para que fosse possível atender pacientes críticos e emergências. Também foram desencadeadas grandes campanhas de conscientização sobre a segurança e a importância da doação de sangue neste momento.

Doar sangue é mesmo seguro nas atuais circunstâncias?
Os bancos de sangue se prepararam para seguir todas as medidas necessárias para garantir a segurança de doadores e colaboradores. Principalmente no momento atual, após um ano de pandemia, já se sabe muito bem quais são os meios de contaminação e, por isso, é possível implementar medidas de proteção muito eficazes. Entre as medidas adotadas estão o distanciamento entre os doadores, a utilização de máscara por todos, sejam doadores ou colaboradores do banco de sangue, o uso do álcool em gel para limpeza das mãos, entre outras orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS).

Quais são os cuidados necessários para quem decide doar neste momento?
Além das recomendações habituais, como vir alimentado e evitar esforço físico após a doação, nesse momento de pandemia recomendamos que o doador procure ir ao banco de sangue de segunda a sexta, quando o fluxo de pessoas é menor. Também é orientada a utilização de máscara durante todo o período em que estiver no banco de sangue e, sempre que possível, entrar em contato antes de ir ao local para verificar previamente se há algum impedimento à doação em decorrência, por exemplo, de medicamentos em uso, exames ou tratamentos a que a pessoa tenha sido submetida recentemente, doenças das quais seja portadora ou vacinas que tenha recebido recentemente. Com isso, é possível evitar deslocamentos desnecessários.

Quem pode e quem não pode doar sangue?
A legislação brasileira é bem detalhada a respeito da doação de sangue. Então, existem muitos itens que precisam ser verificados. De modo geral, podem doar pessoas saudáveis, entre 16 e 69 anos – se menor de 18 anos, é necessária autorização por escrito de um responsável legal e, se maior de 60, só poderá doar se já tiver doado alguma vez antes de completar 60. Também é necessário ter peso superior a 50 quilos e não ter feito tatuagens nos últimos 12 meses. Os sites dos bancos de sangue costumam ter uma lista completa dessas orientações.

Com que frequência uma pessoa pode doar?
O doador de sangue total, ou seja, aquele que doa uma bolsa de sangue, pode fazer quatro doações ao ano, se for homem, e três doações, se for mulher. Essa frequência pode ser diferente para outros tipos de doações de sangue, em que o doador doa apenas um dos componentes do sangue.

O procedimento dá direito a atestado médico?
Sim, é garantido o afastamento do trabalho no dia da doação.

O doador recebe os resultados dos exames realizados após a doação? Qual eles são?
Cada banco de sangue pode definir a forma como os resultados são entregues ao doador. No Banco de Sangue de São Paulo/GSH, que atende junto ao HCor, o doador pode verificar os resultados dos seus exames realizados por meio do site. No material doado são realizados exames que pesquisam doenças contagiosas pelo sangue, como: hepatite B, hepatite C, HIV e doença de Chagas, entre outros, além da tipagem sanguínea e da pesquisa de hemoglobinas anormais.

Um passeio pela história das vacinas: da ordenha de uma vaca no século 18 ao imunizante de RNA contra a Covid-19

As vacinas aplicadas hoje no combate à pandemia são de três tecnologias diferentes – todas, eficazes

Em 1979, a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou que a varíola estava erradicada no mundo, uma conquista que só foi possível pelo emprego massivo da vacinação. Mas essa história começou quase dois séculos antes, quando o médico britânico Edward Jenner resolveu testar um dito popular de que ordenhadores não pegavam a doença. Ao aplicar num garoto o pus retirado de uma das mãos de uma camponesa, ele ativou o sistema imunológico da criança contra a varíola.

“Hoje, um procedimento como esse seria inconcebível”, afirma o médico Gustavo Lenci, cardiologista do Hospital Marcelino Champagnat, de Curitiba, e estudioso da história das vacinas. De fato, não seria admitido hoje uma experimentação tão rudimentar. De todo modo, ficou o marco histórico. Mas, principalmente, o aprendizado do princípio de estimular antecipadamente o sistema imunológico humano a se proteger contra uma ameaça futura.

Do século 18 para cá, com os avanços médicos e tecnológicos, os imunizantes se desenvolveram e se diversificaram. Depois do primeiro modelo, surgiram versões com vírus enfraquecidos, capazes de prevenir doenças como caxumba, rubéola, febre amarela e sarampo. Depois, foram desenvolvidos imunizantes com vírus inativos – isto, é mortos – ou partículas virais, capazes de prevenir males como tétano, hepatites A e B, meningite e HPV.

Mais recentemente, surgiram as vacinas de vetores virais, que “fantasiam” um vírus inofensivo com características do vírus que se deseja combater para que o organismo humano aprenda a se defender com segurança do real inimigo. E, de última tecnologia, as vacinas de RNA mensageiro estimulam a produção no corpo humano de proteínas do vírus a ser combatido. O imunizante da Pfizer, já aplicado no Brasil contra a Covid-19, faz uso dessa tecnologia. A Coronavac, por sua vez, funciona com vírus inativados. Já a vacina AstraZeneca, assim como a Sputnik e a Janssen, que também devem ser usadas no país, são produzidas com vetores virais.

São tecnologias diferentes, o que não significa que deve haver preferência do cidadão por qualquer uma delas em específico. “No contexto da pandemia, não é o caso de escolher. Se quisermos voltar à normalidade, é preciso que o máximo de pessoas seja vacinado o mais rápido possível”, ressalta Gustavo Lenci. Todas as vacinas aplicadas hoje contra a Covid-19 no Brasil foram exaustivamente testadas e são consideradas seguras e eficazes.

ECMO: a terapia com “pulmão externo” que tem salvado vítimas graves da pandemia

Criado na década de 1970, o tratamento requer equipamentos específicos e equipe multidisciplinar 

A Covid-19 é uma doença que acomete todo o organismo, mas os pulmões costumam ser os órgãos mais comprometido. Em casos mais graves, a inflamação pode causar falência pulmonar e morte. Indicada para pacientes com disfunção pulmonar ou cardiopulmonar graves, a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO, na sigla em inglês) tem se tornado mais conhecida na pandemia. Por meio dela, é possível substituir, por um tempo limitado, a função pulmonar enquanto a doença de base é enfrentada.

A ECMO é um tratamento de suporte complexo, que requer equipamentos específicos e equipe multidisciplinar, como explica a médica coordenadora do programa de ECMO e da Cardiologia Pediátrica da Rede Mater Dei, Marina Pinheiro Rocha Fantini. No entanto, não se trata de uma tecnologia nova. A ECMO foi realizada pela primeira vez em 1971, em Michigan, nos Estados Unidos. Atualmente, 50 anos após sua descoberta, a terapia vem trazendo esperança às vítimas graves do novo coronavírus e suas variantes.

A terapia funciona por meio da introdução de uma cânula em uma veia calibrosa do paciente. O sangue é drenado por uma bomba e direcionado à uma membrana oxigenadora, que funciona como um pulmão artificial. Ali, são realizadas trocas gasosas essenciais à vida: o sangue recebe oxigênio ao mesmo tempo em que se retira dele gás carbônico. O sangue de qualidade é então devolvido ao paciente através de outra cânula, também inserida em uma veia calibrosa.

A ECMO só é indicada quando o paciente não responde às medidas clínicas habituais, apresenta doença de caráter reversível e, claro, quando o caso não apresenta qualquer tipo de contraindicação. O tratamento não é indicado a idosos com mais de 70 anos, pessoas com sequelas neurológicas, pacientes oncológicos sem perspectiva de cura e indivíduos que não podem receber anticoagulantes, entre outras.

“Esta não é uma terapia utilizada em todos os pacientes que estão acometidos pela Covid-19, pois é complexa e gera riscos. Considera-se que a taxa de mortalidade dos pacientes submetidos ao procedimento fica entre 40% e 50%. Então, a ECMO a só se justifica quando estamos diante de um paciente que tem uma chance maior do que 60% de falecer”, explica Fantini.

Além disso, a médica reforça a importância da capacitação dos profissionais para a segurança do procedimento: “A equipe precisa ser multidisciplinar – cirurgiões, intensivistas, enfermeiros, fisioterapeutas e cardiologistas, todos especialistas em ECMO e certificados para cuidar destes pacientes”, afirma.

Mesmo sem infectar células do cérebro, o coronavírus pode causar sequelas neurológicas

Pesquisadores da Universidade de Columbia, nos EUA, realizaram uma autópsia detalhada nos cérebros de pacientes vítimas da Covid-19

Os efeitos no cérebro causados pelo novo coronavírus (SARS-CoV-2) têm intrigado a comunidade científica. Sequelas neurológicas como perda de memória recente e dificuldade de concentração são observadas em diversos casos e podem durar meses após a infecção. Agora, um novo estudo publicado no periódico Brain revelou que, mesmo levando a sintomas que afetam funções cerebrais, o vírus não contamina diretamente as células do órgão.

A equipe de cientistas da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, realizou autópsias no cérebro de 41 pacientes que foram hospitalizados e faleceram por Covid-19, com idades entre 38 e 97 anos. Todos tiveram os pulmões danificados pelo vírus e 59% foram encaminhados a uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

Após longas investigações, os pesquisadores não encontraram evidências do vírus nas células cerebrais — baixos níveis do material genético do SARS-CoV-2 foram encontrados por meio de RT-PCR, mas acreditam que isso se deve à sua presença nos vasos sanguíneos e nas leptomeninges, camadas que recobrem o cérebro.

“Ao mesmo tempo, nós observamos muitas mudanças patológicas nos cérebros, o que pode explicar por que pacientes graves podem sofrer de confusão, delírio e outros efeitos neurológicos — e por que os casos leves podem vivenciar o brain fog [condição que leva a sintomas como esquecimento e falta de foco] por semanas e meses”, explica James E. Goldman, um dos autores do estudo.

Se os pesquisadores não encontraram o vírus nas células cerebrais, o que explica, então, esses sintomas neurológicos? De acordo com o estudo, existem duas razões principais. A primeira é a hipóxia, ou seja, falta de oxigenação no órgão, o que o impede de realizar suas funções normalmente. “Todos os pacientes tiveram uma doença pulmonar severa. Não surpreende que exista dano hipóxico no cérebro”, diz Goldman.

Entre as mais de 20 regiões cerebrais estudadas nas autópsias, muitas estavam lesionadas por conta da falta de oxigênio. Em parte, o problema podia ser visto a olho nu. Havia também diversas lesões microscópicas que os cientistas acreditam terem sido provocadas por coágulos sanguíneos — comuns em pacientes graves de Covid-19 — que podem ter interrompido o fornecimento de oxigênio para as áreas prejudicadas.

Outra descoberta, que intrigou pesquisadores, foi a ativação de uma grande quantidade de micróglias, células presentes no tecido cerebral com função de vigilância contra entrada de agentes estranhos (semelhante às células de defesa). A alta concentração foi registrada principalmente no tronco cerebral inferior, que regula os ritmos do coração e da respiração assim como os níveis de consciência, e no hipocampo, uma das estruturas envolvidas no processamento da memória.

Fonte: edição do texto original da Agência Einstein

Perguntas e respostas sobre as diferentes vacinas contra a Covid-19

Tudo o que já se pode saber sobre os imunizantes hoje disponíveis. E o que ainda falta descobrir

Quem se vacina não protege apenas a si mesmo, mas também as pessoas ao redor – e em outros lugares onde a doença pode chegar. Por tabela, os imunizantes beneficiam até pessoas que não podem se proteger, por ter outras doenças graves. Por isso, as vacinas contra a Covid-19 têm sido tão disputadas no mundo inteiro. São oportunas, eficazes e seguras, mas muito novas na perspectiva da ciência.

Para várias perguntas sobre este tema, ainda não há respostas, como explica a bióloga e doutora em imunologia Cristina Beatriz Bonorino, pesquisadora associada do Sistema Único de Saúde (SUS) e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), que falou sobre esse assunto em uma live promovida pelo Hospital Moinhos do Vento, de Porto Alegre. Mas respondemos algumas perguntas sobre o que se sabe até o momento em relação às vacinas disponíveis contra a Covid-19. Confira:

As vacinas contra Covid-19 são seguras?

Sim, de acordo com a SBI. Para qualquer vacina ser liberada, são feitos diversos testes de segurança e eficácia. As vacinas contemporâneas são de vírus inativados ou fragmentados, entre outras tecnologias ainda mais novas, mas nenhuma com potencial infeccioso. Antes de serem liberadas para aplicação na população, os imunizantes também são submetidos aos critérios pré-estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

As vacinas contra Covid-19 podem alterar o DNA?
Não. A vacina da Pfizer atua no RNA, um mensageiro que direciona  a produção de proteínas do vírus pelas células do indivíduo para que o sistema imunológico aprenda a reconhecê-lo e criar defesas. Nesse processo, o RNA exerce suas ações em uma região da célula que não tem contato com o DNA.

Quais são os efeitos colaterais dessas vacinas?
Segundo Bonorino, os mais comuns são febre baixa, dores no corpo, fadiga e dor no local da aplicação, que são sinais de que o sistema imunológico está respondendo à vacina. Esses efeitos colaterais são passageiros e desaparecem em 24 horas. Se passar disso, podem ser sintomas de uma infecção viral de outra ordem, que nada têm a ver com a vacinação. Então, é recomendado buscar ajuda médica.

O que fazer caso haja atraso na segunda dose?
“Várias pessoas hoje no Brasil estão nesse limbo, o que não poderia ter acontecido”, afirma a doutora em imunologia. O fato é que a segunda dose deveria ter sido reservada pelas autoridades competentes. Em geral, o que se tem feito é administrar a segunda dose assim que disponível, mas não há estudos sobre a eficácia das vacinas em prazos superiores aos estabelecidos pelos fabricantes. “O ideal agora seria que o Ministério da Saúde promovesse estudos clínicos para verificar isso.”

E se uma pessoa tomar uma dose de um fabricante e a segunda de outro?
Não há estudos que comprovem a eficácia dessa combinação, explica Bonorino. “No Brasil, em particular, há duas vacinas muito diferentes, a Coronavac e a AstraZeneca – uma não vale como segunda dose da outra porque induzem a formas de proteção diferentes”.

Com apenas uma dose, uma pessoa fica ao menos parcialmente imunizada?
A vacina da Johnson & Johnson é a única até o momento que pode ser aplicada em apenas uma dose. As demais preveem duas doses e não se sabe se têm algum grau de eficácia para além de poucas semanas caso a segunda etapa não se concretize.

Deve haver um intervalo entre as vacinas da gripe e da Covid-19?
Não há indicações de riscos relacionados à administração das duas ao mesmo tempo, mas tem se estabelecido um intervalo de 15 dias apenas para evitar confusão com efeitos colaterais dos dois imunizantes. Diversas vacinas para outras doenças já são tradicionalmente aplicadas em conjunto.

Quem já teve a doença, precisa se vacinar?

Sim. Ainda não se sabe exatamente por quanto tempo dura a proteção natural de quem já se contaminou e se curou.

Quem já está imunizado pode abrir mão dos cuidados preventivos (uso de máscaras, distanciamento social e higiene das mãos)?
Não. Nenhuma vacina tem 100% de eficácia. Ainda é possível, por exemplo, que a pessoa se infecte e permaneça assintomática, sendo capaz de transmitir o vírus. Por isso, os cuidados devem ser mantidos por tempo ainda indeterminado.

A imunização contra a Covid-19 deve se tornar anual, como a da gripe?

Como as vacinas contra a doença ainda são muito recentes, ainda não se sabe ao certo quanto tempo deve durar a imunidade que proporcionam. Isso ainda está sendo estudado. “O importante agora é que o maior número de pessoas seja vacinado no menor tempo possível”, afirma a imunologista.

Medidas de prevenção contra a Covid-19: é importante relembrar

Saiba como se proteger em todas as idades, vacinado ou não, saudável ou doente

O Ministério da Saúde lançou uma campanha em larga escala para conscientizar a população sobre três medidas fundamentais no combate à propagação do novo coronavírus e suas variantes: higiene das mãos, uso de máscaras e distanciamento social. O Saúde da Saúde aproveitou o ensejo para conversar com a infectologista Vera Rufeisen, do Vera Cruz Hospital, de Campinas, para reforçar a importância das medidas de prevenção contra a Covid-19  enquanto a vacinação avança no país e a propagação da doença segue estável, porém ainda num patamar alto.

Saúde da Saúde – A contaminação por superfícies é menos que intensa do que a por interação social? Por quê?
Vera Rufeisen – As partículas virais são transmitidas diretamente através da eliminação de gotículas respiratórias pela fala, pela tosse e pelo espirro, principalmente.  Mas também indiretamente, tocando as superfícies contaminadas com estas gotículas, e tocando o rosto (nariz, olhos e boca) com as mãos contaminadas.  A via respiratória é a principal forma de transmissão, é onde o vírus adere aos receptores nas células. As superfícies, portanto, podem servir apenas de intermediárias, caso a higiene das mãos não seja realizada adequadamente.

Há alguma diferença de eficácia entre lavar as mãos e usar álcool em gel?
O padrão ouro recomendado pela Organização Mundial da Saúde é a higiene das mãos com álcool em gel a 70%, desde que as mãos estejam sem sujidade aparente. Se estiverem sujas, devem ser lavadas com água e sabão. O álcool tem espectro de ação grande, é mais prático, pode estar no ponto de assistência, tem ação rápida e não causa lesões na pele. O tempo necessário para higiene completa das mãos com álcool em gel é de 20 a 30 segundos. A Campanha deste ano da OMS fala sobre “os 20 segundos que salvam vidas”.

Qual é o papel da alimentação na prevenção e no tratamento da doença?
A alimentação saudável, sem alimentos ultraprocessados, com frutas, legumes e verduras, associada aos bons hábitos de vida e  atividade física  promovem a base da vida saudável, e consequentemente de uma boa imunidade.

Que medidas uma pessoa já contaminada pode tomar para minimizar os riscos de desenvolver a forma grave da doença?
A pessoa contaminada deve permanecer em isolamento social – mesmo em domicílio, se morar com alguém –,  em repouso relativo: não muito tempo deitado nem na mesma posição, a fim de proporcionar expansão pulmonar adequada. Deve também se manter bem hidratado, controlar as doenças pré-existentes, além de monitorar atentamente a sua temperatura e a oximetria do sangue. Habitualmente, as complicações acontecem entre o sexto e o nono dias do início dos sintomas. Caso ocorra queda na oxigenação do sangue ou reaparecimento de febre, por exemplo, deve-se procurar imediatamente o serviço de saúde.

Qual é a importância  de uma grande campanha a nível federal sobre bons hábitos de prevenção?
É de extrema importância que o país tenha uma liderança uníssona para enfrentamento da pandemia. Algumas pessoas, por cansaço ou por desinformação tendem a relaxar as medidas de prevenção, e precisam ser estimuladas e direcionadas por um governo assertivo, guiado por posicionamento científico. Quando um líder questiona as medidas de prevenção, cria uma névoa de dúvidas, confundindo os menos esclarecidos, e dando voz aos que negam a gravidade da maior tragédia sanitária do século.

Gestação e Covid-19: avaliar os riscos é fundamental antes de decidir o melhor momento para ser mãe

Chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Moinhos de Vento esclarece as principais dúvidas sobre gravidez na pandemia
 
Para as mulheres em idade reprodutiva, o contexto atual gera muitas incertezas. Qual seria o real impacto da pandemia numa possível gestação?  Ainda não se conhece por completo o novo coronavírus e todas as suas implicações para mães e bebês. Com base na literatura científica corrente e na própria experiência no enfrentamento do vírus na gestação, o médico obstetra Edson Vieira da Cunha Filho, chefe do Serviço de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Moinhos de Vento (RS), esclarece dúvidas comuns das mulheres que sonham ser mães em breve.

Em relação ao momento mais adequado para engravidar, o médico pondera: se a mulher não estiver “correndo contra o próprio tempo biológico” — estando abaixo dos 35 anos, por exemplo —, já possuir filhos e puder adiar a gestação, o melhor seria esperar. “Até o momento, não se viu aumento da incidência de abortos, da ocorrência de fetos malformados ou até mesmo uma taxa alta de transmissão vertical (da mãe para o feto) durante a gestação, mas houve aumento da internação hospitalar de gestantes e de formas mais graves da doença neste grupo”, destaca.

Um estudo americano do Centro de Controle e Prevenção de Doenças comparou quase 24 mil gestantes com mulheres não grávidas, todas pareadas por idade e contaminadas. A pesquisa mostrou que a chance de internação em UTI entre as gestantes foi três vezes maior, bem como a necessidade de ventilação mecânica. Entre elas, o número de mortes também foi 1,7 vez maior. O médico sugere que se considere a proximidade da vacina antes da tomada de decisão.

Já sobre uma suposta suscetibilidade maior de a grávida contrair o novo coronavírus, o médico esclarece que não há relação. “A imunidade da gestante está modificada, mas não significa que esteja com a atividade mais baixa”, afirma. Ao mesmo tempo, “os cuidados devem ser os mesmos, até porque, se pegar a doença, podem haver complicações”. Sobre o tratamento, o obstetra afirma que não há diferença entre pacientes grávidas e não grávidas.

Complicações e transmissão vertical

Edson explica que a relação entre o novo coronavírus e algumas patologias obstétricas, como a pré-eclâmpsia (uma forma grave de hipertensão arterial na gravidez), não está plenamente estabelecida. “Pela resposta inflamatória à Covid-19 e até mesmo pelo uso de determinadas medicações, a gestante pode ter elevação da pressão arterial. Também pode ocorrer alteração de enzimas hepáticas, o que pode levar à interpretação do quadro como uma pré-eclâmpsia grave e a sua diferenciação pode ser difícil ou até mesmo impossível de ser estabelecida. Essa é uma das causas do aumento da taxa de prematuridade nesse grupo.”

Mas uma gestante com Covid-19 pode contaminar a criança? O médico conta que a transmissão vertical ainda é um ponto obscuro. No entanto, a literatura mostra que a taxa fica em torno de 3% a 4%. Entre as crianças que foram contaminadas, a maioria não registrou necessidade de internação, não apresentou sintomas severos e a prevalência da doença foi baixa e de menor morbidade. “O problema também não foi associado com malformação nem abortamento no primeiro trimestre. Mas precisamos de mais tempo para termos certeza.”

Edson reforça que, até o momento, pode-se dizer que as gestantes têm maior risco de complicações devido à contaminação pela Covid-19, mas a enorme maioria têm apresentado quadros leves ou controlados. Nos primeiros sinais da doença, o obstetra deve ser consultado para fornecer as orientações necessárias. “Sinais de maior gravidade, como tosse persistente, febre alta, falta de ar, dor respiratória, dor torácica ou sinais de envolvimento obstétrico (contrações, corrimentos vaginais, dor abdominal, diminuição da movimentação fetal) devem ser avaliados em ambiente hospitalar.”

Fonte: edição do texto original do Hospital Moinhos de Vento.

Cardiologista comenta riscos da automedicação contra a Covid-19

O médico explica que, por enquanto, a vacina é o única forma de prevenir a doença

Como muita gente ainda recorre a medicamentos sem comprovação científica para prevenir ou tratar a infecção pelo novo coronavírus, o Saúde da Saúde conversou sobre os riscos da automedicação com médico Gustavo Lenci, cardiologista do Hospital Marcelino Champagnat, de Curitiba, e professor do curso de medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná. Ele foi enfático ao desencorajar a prática, destacando os riscos de efeitos colaterais e interações medicamentosas.

Saúde da Saúde – De maneira geral, quais podem ser as consequências do uso de medicamentos sem prescrição médica?
Gustavo Lenci – A automedicação é sempre perigosa. Há uma série de doenças que o paciente pode ter ou mesmo interações de remédios que, quando associados, podem levar a mais efeitos colaterais. Por isso, sempre desestimulamos qualquer atividade de automedicação. Quando surgirem dúvidas, o mais recomendado é procurar um profissional.

Infelizmente, alguns médicos têm prescrito remédios sem comprovação científica de benefícios na prevenção ou no tratamento da Covid-19. Quais são os principais riscos envolvidos?
Os riscos se devem ao uso dessas medicações sem saber os efeitos colaterais que podem provocar. Com base em resultados laboratoriais, o médico poderia até ponderar o uso em situações extremas, mas há medicações que são prescritas que comprovadamente não funcionam. Nesses casos, pode-se expor o paciente a efeitos colaterais para algo que está provado não haver benefício.

Além de tratar os sintomas, que remédios podem realmente ser administrados no tratamento da Covid-19?
Pacientes em situações graves precisam de oxigênio ou de corticoides, único tratamento com estudos que comprovam benefício. É importante ressaltar que o tratamento adequado para a Covid-19 ocorre dentro do hospital, com uso de anticoagulação profilática. Infelizmente, para uso domiciliar, ainda não existe nada comprovado. As principais agências reguladoras, do Reino Unido, da União Europeia e dos Estados Unidos, recomendam que não seja utilizado nenhum medicamento em domicílio.

Há algum remédio capaz de prevenir a doença fortalecendo o sistema imunológico?
Sabe-se que o único meio de fortalecimento do sistema imunológico contra a Covid-19 por meio de medicação chama-se vacina. Nos demais casos, ou o estudo é negativo ou ainda está em fase de teste. Medicação preventiva não existe. A melhor forma é se vacinar e garantir o seu bom estado de saúde, regulando a atividade física e mantendo uma boa dieta para controlar doenças que possam agravar o quadro.

Hipertensão e Covid-19: pressão alta aumenta o risco de morte na pandemia

A hipertensão arterial atinge cerca de 25% da população adulta no Brasil – ou seja, entre 35 e 40 milhões de pessoas

Além de estar entre os principais fatores de risco para as doenças cardiovasculares, a hipertensão arterial exige atenção durante a pandemia por também estar associada a uma maior incidência de complicações e mortes em casos de infecção pelo novo coronavírus. Apesar dessa relação apontada por estudos científicos, muitos pacientes têm retardado ou até abandonado o tratamento com receio de frequentar consultórios médicos e ambientes hospitalares.

Responsável direta ou indiretamente por metade das mortes por doenças cardiovasculares no mundo, a hipertensão atinge uma média de 25% da população adulta no Brasil – entre 35 e 40 milhões de pessoas – e responde por cerca de 350 mil óbitos anuais, segundo a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH). Crônica e multifatorial, a hipertensão é a principal causa também de 80% dos casos de acidente vascular cerebral (AVC).

“No caso da Covid-19, os hipertensos podem ter mais chances de complicações pela forma grave da doença, com maior risco de morte. Por isso, é importante que o paciente mantenha o acompanhamento de rotina e não interrompa por conta própria o uso de medicamentos”, orienta o cardiologista Eduardo Darzé, diretor-geral do Hospital Cárdio Pulmonar, de Salvador.

“Além do AVC, a hipertensão não tratada é também um importante fator de risco para infarto, insuficiência cardíaca, doença renal crônica, com necessidade de diálise, e formação de aneurismas”, enumera o médico.  Ele lembra que apenas os hipertensos graves ou que apresentam complicações da doença integram os grupos prioritários de pacientes com comorbidades na fila da vacinação contra a Covid-19 na capital da Bahia.

Novos parâmetros

Diante da importância da doença como uma das principais causas de morte no mundo, especialistas têm se debruçado sobre o tema. No final de 2020, a Sociedade Brasileira de Cardiologia atualizou dados e lançou a nova edição da Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial (DBHA), que altera padrões para diagnóstico e tratamento.

Uma das mudanças está ligada a valores de referência para a detecção da doença pela monitorização residencial da pressão arterial (MRPA). A diretriz passou a considerar hipertensão arterial quando as medidas realizadas em casa são iguais ou superiores a 130 mmHg por 80 mmHg. “Antes, o parâmetro para hipertensão era igual ou maior que 135 mmHg por 85 mmHg pela MRPA. Na avaliação em consultório, os valores de referência continuam 140 mmHg por 90 mmHg”, explica Darzé.

O documento da SBC ainda considera como pressão “normal ótima” a que registra números abaixo de 120 mmHg por 80 mmHg. A faixa entre 120 e 129 mmHg e 80 e 84 mmHg é considerada “normal”, mas não ótima e deve ser acompanhada por um especialista. “É fundamental que o paciente tenha em vista a importância das avaliações para detecção precoce da hipertensão, assim como as consultas de acompanhamento para os já diagnosticados”, orienta.

Darzé reforça que a prevenção contra a hipertensão e o controle da doença partem de hábitos saudáveis, que incluem uma dieta com baixo teor de sal, a manutenção do peso ideal, moderação no consumo de álcool, prática de atividades físicas e não fumar.

Entenda por que pacientes com doenças crônicas não podem esperar pelo fim da pandemia para se tratar

Na BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo a marcação de consultas caiu até 30% em um ano

Com quase 14 milhões de infectados pela Covid-19 e mais de 370 mil mortes, este se configura o pior momento pandemia no Brasil até agora. Mas o problema não atinge apenas os infectados pelo novo coronavírus e suas variantes. Lucas Guimarães, gerente-médico do BP Vital, rede de clínicas e consultórios do hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, alerta que pacientes com doença renal, insuficiência cardíaca, doenças pulmonares, câncer e também pacientes de idade avançada podem sofrer impactos importantes se não mantiverem acompanhamento adequado.

“Um paciente com problema cardíaco, por exemplo, se não acompanhar os níveis de pressão, poderá ter uma descompensação num período de três a quatro meses – isto é, alguma alteração que leve à piora dos sintomas”, afirma o médico. O acompanhamento periódico serve para prevenir esse tipo de piora, com ajuste de medicamentos, solicitação de exames de monitoramento e reforço de orientações relacionadas à dieta e à atividade física, entre outros fatores relacionados.
 
De acordo com dados da instituição, houve uma queda de 30% no volume de consultas em janeiro, se comparado com o mesmo período de 2020. E esse número se agravou ainda mais ao longo das últimas semanas, ocasionando uma nova diminuição de 30%. Uma série de fatores pode ter influenciado essa queda, mas o primordial é o medo – de maneira geral, as pessoas têm receio de procurar serviços de saúde durante a pandemia.

Com a perspectiva da vacinação, alguns pacientes também têm postergado a ida ao médico para depois da imunização. Mas há casos em que não se deve esperar. No mais, é importante considerar que as instituições de saúde trabalham hoje com reforço de segurança, que inclui fluxos específicos para pacientes que necessitam de atendimento. Casos suspeitos de Covid são encaminhados em separado dos demais.

“Aqui na BP, nós também podemos realizar as consultas médicas via videoconferência, as chamadas teleconsultas. E, para a realização de exames, oferecemos um drive-thru, em que o paciente não precisa sair do carro nem para a coleta de sangue”, explica Guimarães.

Hoje, o médico já percebe descompensações em doenças crônicas desencadeadas pela suspensão do acompanhamento periódico. “Não se deve negligenciar consultas, mesmo no momento de isolamento, pois elas podem ser a diferença entre manter-se saudável e necessitar de uma eventual internação.”

Fonte: edição do texto original da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo.