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Fake news: como não cair nessa cilada quando o assunto é saúde

Conversamos com especialistas das áreas de saúde e da imprensa para saber como identificar notícias falsas

Com a propagação desenfreada das notícias falsas, as chamadas fake news, não seria exagero colocá-las lado a lado com alguns dos males dos últimos tempos. Segundo pesquisa da Avaaz, rede de mobilização que luta por causas ao redor do mundo, nove em cada dez brasileiros viram pelo menos uma informação falsa sobre a pandemia em 2020. Ainda de acordo com o estudo, intitulado “O Brasil está sofrendo uma infodemia de Covid-19”, publicado em maio do ano passado, sete em cada dez brasileiros entrevistados acreditaram em, ao menos, um conteúdo desinformativo sobre o coronavírus.

O Saúde da Saúde conversou com especialistas das áreas da saúde e da imprensa para entender como identificar e evitar o compartilhamento de fake news.

> Entrevista com Chico Marés, coordenador de Jornalismo da Agência Lupa, especializada em fact-checking (checagem de fatos, em português)

Saúde da Saúde: Como as fake news podem impactar na saúde?
Chico Marés: Notícias falsas sobre saúde fazem com que pessoas tomem decisões sobre seu próprio bem-estar baseadas em informações erradas, o que pode levar diretamente a consequências danosas.

Nessa crise da Covid-19, temos uma infinidade de exemplos. Há pessoas que evitaram tomar vacinas, e não apenas expõem a si próprias a uma doença grave, mas comprometem a imunização coletiva. Outras (ou as mesmas) adotam comportamentos de risco, como frequentar locais com aglomerações ou não usar máscaras, porque duvidam do risco da Covid-19. Há ainda aquelas que tomam certos remédios, que como toda droga têm contraindicações e efeitos colaterais, por acreditar em coisas que leem na internet — e também adotam condutas de risco por acreditarem estar imunizadas.

Saindo da seara da Covid-19, há toda uma indústria de suplementos de saúde que utiliza depoimentos falsos de médicos e celebridades para empurrar produtos que, na melhor das hipóteses, são placebos por preços abusivos. Há, ainda, conteúdos de má qualidade sobre dietas que podem gerar falsas expectativas e até mesmo influenciar hábitos alimentares pouco saudáveis.

Saúde da Saúde: Onde buscar informações confiáveis sobre saúde?
Marés: Instituições públicas de saúde (como secretarias de saúde, por exemplo), institutos de pesquisa, universidades e associações médicas sérias (como a SBI, a AMB, ou várias outras sociedades ligadas a doenças específicas) são boas fontes sobre esse assunto. Para quem fala inglês, instituições como o CDC americano e Cancer Research UK têm ótimos guias, bem didáticos, sobre doenças específicas, especialmente câncer.

Na imprensa, vários veículos tradicionais têm boas coberturas no tema, como o G1, a Folha de S.Paulo e a BBC. Mais especificamente, acho o blog do Drauzio Varella fantástico. Há bons influenciadores, como Natália Pasternak, Átila Iamarino, Vítor Mori. Enfim, tem muitos bons lugares para ler sobre saúde — mas, claro, nada disso substitui uma consulta com um médico!

> O que dizem os especialistas em saúde: uma conversa com Maurício Abrão, coordenador de Ginecologia da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo

De acordo com o coordenador de ginecologia da BP, Maurício Abrão, na medicina, as pesquisas sempre estão sendo revistas para confirmação ou correção do que foi escrito no passado — e é por conta disso que se torna possível avançar em termos de diagnóstico, tratamento, cirurgia, medicação e formação médica. No entanto, com a propagação de notícias falsas, o caminho se torna o inverso.

“As fake news podem fazer com que as pessoas deixem de se cuidar e troquem medicamentos por produtos sem comprovação científica. O resultado pode ser desde um mal-estar até a morte”, alerta.

Na dúvida, a indicação é sempre procurar o seu médico. Tendo em mãos o seu histórico, como queixas, diagnósticos, exames e medicações, ele poderá confirmar o que faz sentido ou não para você. “O que é bom para o seu amigo pode não ser bom para você. A queixa médica pode ser a mesma, mas as pessoas são diferentes e, com isso, o tratamento, principalmente de saúde, deve ser específico para quem você é”.

Sobre o “Dr. Google”, o especialista não aconselha consultar a internet antes de marcar uma consulta. Segundo o médico, o ideal é obter o diagnóstico correto com profissionais de saúde. “A pessoa que sente uma dor e procura na internet vai ficar ansiosa, já que tudo o que aparece é relacionado a câncer. Gera uma ansiedade desnecessária.”

Como identificar uma notícia falsa? Confira as dicas da Agência Lupa:

– O primeiro indício é o uso de afirmações como “cura definitiva”, “100% garantido”, “totalmente eficaz”;
– Cheque a fonte, se é desconhecida ou pouco confiável. Materiais com erros flagrantes de português ou com sinais de que foi traduzido por ferramentas como Google Tradutor, por exemplo, também costumam ser falsos.
– Pergunte-se: esse conteúdo foi publicado em um site confiável? Vale fazer uma busca na internet, pois muitas vezes o primeiro resultado é de algum veículo de checagem mostrando que essa informação é falsa.
– Avise quem compartilhou: ao receber uma fake news e constatar que é falsa, avise a pessoa que te enviou para que a “notícia” não seja levada adiante.

Base científica: 9 fatos sobre a Covid-19 em que você pode confiar

Fake news se combatem com informação de qualidade. Durante uma pandemia, o conhecimento científico salva vidas

Em conversa com a infectologista Silvana de Barros Ricardo, médica coordenadora do Serviço de Epidemiologia e Controle de Infecção Hospitalar da Rede Mater Dei de Saúde, de Belo Horizonte, o Saúde da Saúde elenca os principais fatos cientificamente comprovados sobre a principal doença dos últimos 100 anos, a Covid-19.

1. Origem
Muito antes da pandemia, os coronavírus já eram considerados agentes patógenos – isto é, capazes de causar doenças – para humanos e animais. No final de 2019, um novo coronavírus foi identificado como a causa de um grupo de casos de pneumonia em Wuhan, uma cidade na província de Hubei, na China. O vírus se espalhou rapidamente, resultando em uma epidemia em toda a China, seguida por uma pandemia. “Em fevereiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde denominou a doença Covid-19, que significa ‘doença do coronavírus 2019′”, explica Silvana. O vírus foi batizado como SARS-CoV-2.

2. Contaminação
A principal forma de contágio da Covid-19 é o contato interpessoal próximo (até 2 metros). “Também transmite a doença o toque em superfícies contaminadas com partículas respiratórias denominadas perdigotos, que são liberadas quando uma pessoa com infecção tosse, espirra ou fala”, afirma a infectologista, ponderando que esta forma de contágio é menos expressiva.  O SARS-CoV-2 também pode ser transmitido por distâncias mais longas através de aerossóis, partículas respiratórias bem menores que os perdigotos, mas essa forma de contaminação também é menos comum do que o contato interpessoal próximo.

3. Prevenção
As principais medidas de prevenção são distanciamento social, a higienização das mãos e o uso de máscaras adequadas (preferencialmente cirúrgicas descartáveis, N95/FPP ou de três camadas, caso sejam de tecido). A vacinação completa, uma conquista recente e gradual, é a medida preventiva mais efetiva. O processo costuma incluir duas doses, a exceção no Brasil da vacina da Janssen (Johnson & Johnson), de dose única.

4. Tratamento precoce
Não existe tratamento precoce para a Covid-19, embora muitas fake news tenham sido propagadas orientando o contrário. Indicados para lúpus e artrite reumatóide, a cloroquina e a hidroxicloroquina foram testadas contra a Covid-19 pela Universidade de Colúmbia (EUA). Resultado: sem eficácia, mas com efeitos colaterais. A OMS recomenda “fortemente” que esses medicamentos não sejam usados no combate ao novo coronavírus. Também não há comprovação de que a ivermectina, antiparasitário empregado no combate a vermes e ácaros, funcione contra a Covid-19. Em fevereiro, a MSD, empresa norte-americana que fabrica o medicamento, publicou uma nota informando o público sobre a questão.

5. Gravidade variável
A Covid-19 pode ser assintomática, leve, moderada, grave ou mortal, a depender do quadro clínico de cada paciente. Mesmo com o melhor tratamento, o desfecho pode ser imprevisível. Isso ocorre, explica Silvana, porque a doença ainda não é totalmente compreendida e nenhum tratamento avaliado mostra benefício uniforme para todas as pessoas. A médica acrescenta que “indivíduos de qualquer idade podem adquirir a infecção por SARS-CoV-2, embora adultos de meia-idade e mais velhos sejam os mais comumente afetados, com maior probabilidade de ter doença grave”. A idade é um dos fatores de risco mais importantes para gravidade e morte – e o risco aumenta a cada década adicional. Outros fatores que podem contribuir para as complicações de Covid-19 incluem doenças pré-existentes, como doença cardiovascular, diabetes, doença pulmonar crônica e obesidade. Assim como a idade, essas comorbidades garantem prioridade na fila da vacinação.

6. Sequelas
“A Covid-19 pode causar sequelas e outras complicações médicas que podem durar de semanas a meses após a recuperação inicial, fenômeno que passou a ser chamado de síndrome pós-Covid”, afirma Silvana. Uma revisão científica, publicada em janeiro no site especializado MedRxiv, avaliou os efeitos de longo prazo da Covid-19 para concluir que 80% dos pacientes desenvolveram um ou mais sintomas de longo prazo. Os cinco mais comuns foram fadiga (58%), dor de cabeça (44%), distúrbio de atenção (27%), queda de cabelo (25%) e falta de ar (24%).

7. Reinfecções
Casos de reinfecções têm sido confirmados, mas são proporcionalmente pouco frequentes. “Na maioria deles, o segundo episódio foi mais leve que o primeiro”, contextualiza a médica. As possíveis razões para a reinfecção incluem uma resposta imune variável do paciente, a exposição a uma nova cepa do vírus ou resultados anteriores de falso-positivos.

8. Imunidade de rebanho
A OMS advoga que a ‘imunidade de rebanho’ e o controle da pandemia devem ser obtidos por meio da imunização via vacinação de, pelo menos, 70% da população. Sem ela, haveria uma enormidade de adoecimentos e mortes desnecessários até se atingir esse percentual.

9. Vacinados que adoecem
Como nenhuma vacina contra a Covid-19 é 100% eficaz, são esperadas alguns casos de infecção em indivíduos vacinados, como o ocorrido recentemente com a apresentadora de TV Ana Maria Braga. Pessoas vacinadas tendem a desenvolver as formas leve ou assintomática da doença – mas podem transmiti-la. Por isso, todos devem manter as máscaras e as demais medidas preventivas até que a pandemia seja controlada em termos populacionais.Desde o início da pandemia, muitas fake news circularam com informações enganosas sobre a Covid-19. Hoje, 8 de julho, é Dia Nacional da Ciência e do Pesquisador Científico, uma data oportuna para esclarecer o que é fato e o que é fake.