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Em tempos de pandemia, compreenda a relação direta entre alimentação e imunidade

Num momento em que se fala tanto sobre saúde, um tema correlato é essencial: alimentação. Para o Dia Nacional de Saúde e Nutrição, 31 de março, o Saúde da Saúde conversou com a nutricionista Paula Elisa Oliveira, líder assistencial de Nutrição Clínica do Hospital Moinhos de Vento, de Porto Alegre. Nesta conversa, ela explica a relação dos hábitos de alimentação com imunidade, raciocínio, memória, funcionamento do corpo e qualidade do sono. Paula Elisa também comenta os hábitos alimentares do brasileiro e o que pacientes com Covid-19 devem comer, caso permaneçam em casa ao longo de sua recuperação.

Saúde da Saúde – Qual é a relação entre alimentação e imunidade?

Paula Elisa – Está muito clara a relação da alimentação na modulação de nosso sistema imunológico. Quanto mais saudável e variada for a alimentação, com mais alimentos in natura e menos industrializados e ultraprocessados, melhor para nossa imunidade. Micronutrientes, como as vitaminas, têm papel fundamental nesse processo. É importante também termos hábitos de vida saudáveis, como a prática de atividades físicas, e lembrar que não será em duas ou três semanas, após um longo período de uma alimentação errada, que vamos modular o sistema imunológico.

Digestão, sono, concentração, raciocínio, memória… Uma alimentação balanceada também está relacionada ao melhor funcionamento do corpo?

A qualidade da alimentação é preditiva a todos esses aspectos. Por exemplo, quanto melhor estiver nosso peso, sem sobrepeso ou obesidade, a tendência é de que o sono seja de melhor qualidade. Em relação à memória, raciocínio e concentração, o consumo de alimentos com vitamina B12 tem relação direta com essas questões. Quanto melhor for nossa alimentação, mais fácil será a digestão e absorção de vitaminas e minerais, mantendo o corpo em equilíbrio.

Em relação à alimentação típica do brasileiro, o que seria interessante mudar?

Um prato típico nosso, o arroz com feijão, é a única combinação que oferta os 20 aminoácidos essenciais que o organismo necessita, pois não consegue sintetizá-los. De forma mais ampla, já tivemos uma evolução positiva sobre a conscientização e o consumo de alimentos in natura, como verduras e frutas. Podemos ampliar sua ingestão. Há algumas pessoas que não consomem por hábito ou dificuldade de acesso, como o custo, caso das proteínas das carnes, que têm um custo mais alto, mas que podemos intercalar nos diferentes dias da semana com o consumo de ovos, por exemplo. É importante que as carnes tenham o mínimo ou não tenham gordura aparente, pois seu consumo excessivo gera aumento de peso e doenças crônicas.

Como desenvolver melhores hábitos alimentares e consciência nutricional?

É importante que se busque menos dietas restritivas, que têm dificuldade grande de adesão, gerando estresse no indivíduo. O objetivo deve ser mudar os hábitos alimentares dentro de algo que seja factível para cada pessoa. E vem muito como uma iniciativa pessoal de cada um, devendo contar com a orientação de profissionais, como nutricionistas e endocrinologistas.

Quando procurar um nutricionista? E com que frequência isso deve ocorrer?

É algo bem subjetivo, pois existem diversas situações em que o ideal seria buscar esse profissional. Na prática, ainda não é comum, pois as pessoas têm resistência a esse acompanhamento, que segue associado com dieta, restrição e retirada de alimentos, como se fosse algo punitivo. A nutrição evoluiu muito com o passar dos anos. Hoje falamos muito em reeducação e mudança de hábitos alimentares. Ensinar as pessoas a comer de acordo com sua necessidade, acesso e aceitação. O resultado e a adesão do paciente só serão efetivos quando houver uma alimentação adequada, sem sofrimento ou grandes restrições. Quanto à frequência, dependerá da avaliação do profissional e necessidade do paciente.

Hoje, a recomendação é que pessoas com sintomas leves de Covid se cuidem em casa mesmo. Como deve ser a alimentação nesses casos?

Esses pacientes têm sintomas alimentares característicos. Podem sofrer com perda de paladar e olfato, além de dificuldade para engolir. Têm vontade de comer determinado alimento, mas não sentem sabor, ou sentem diferente, o que pode durar vários meses. Por isso, é muito comum haver perda de peso, não só pelo aumento da necessidade calórica da doença, mas pela redução do consumo, o que lhes deixa mais debilitados. Não há uma recomendação específica de alimento, vai de acordo com o que o paciente consegue tolerar e consumir. Alguns precisam de algo mais macio, por exemplo, e têm preferência por líquidos, gelados, cítricos e refrescantes. Mas, sempre que puder, deve ser uma alimentação saudável e variada, com todos os grupos alimentares. Isso, com certeza, auxiliará no tratamento e recuperação do paciente.

Cuidado com pacientes oncológicos durante pandemia de Covid-19

Sem imunidade e sem vacina contra o novo coronavírus, toda a população está exposta e suscetível a contrair a doença. Mas alguns grupos estão ainda mais vulneráveis, como é o caso de pessoas em tratamento contra o câncer e que, por conta disso, têm seu sistema imunológico abalado.

O superintendente e diretor médico do A.C. Camargo Cancer Center, Victor Piana, esclarece que a rotina imposta à população nesse momento muito se assemelha à qual os pacientes oncológicos já estão habituados e que, agora, é necessário apenas redobrar a atenção. Decisões sobre rotina de tratamento devem ser tomadas junto ao médico e visitas ao pronto-socorro devem ocorrer exclusivamente se houver presença de sintomas típicos da Covid-19, como a falta de ar. O especialista também chama a atenção para o fato de que alguns pacientes oncológicos, devido à sua condição, podem não apresentar febre.

Confira a entrevista completa:

Qualquer paciente oncológico pode ser considerado parte do grupo de risco?

Victor Piana: Pacientes oncológicos, em geral, são considerados grupo de risco e demandam de mais cuidados e atenção. E os pacientes em vigência de quimioterapia, em especial os oncohematológicos e transplantados, são mais vulneráveis que os demais.

Frente à pandemia do Covid-19, um tratamento quimioterápico deve ser mantido ou há caminhos alternativos?

Piana: O sucesso do tratamento oncológico depende de muita disciplina. A sobrevida específica do paciente com câncer depende da aderência ao plano terapêutico, e os intervalos de tempo para início ou entre as fases do tratamento são muito importantes. Então, a recomendação é que os pacientes não interrompam o tratamento. O ideal é que conversem com seus médicos e juntos decidam qual caminho seguir neste momento.

Pacientes oncológicos, devido à imunossupressão causada pelas terapias, devem adotar medidas mais rígidas para se proteger?

Piana: A rotina dessas pessoas já é bem criteriosa. Então, não há novas recomendações. Apenas reforçamos a importância de evitar aglomerações, lavar as mãos, evitar contato com pessoas doentes etc. Como são rotineiramente informados da sua vulnerabilidade, sempre estiveram sob os cuidados de higiene e isolamento que toda a população está sujeita neste momento.

É possível realizar o tratamento em casa, para evitar o deslocamento e, portanto, o contato com outras pessoas?

Piana: O tratamento oncológico envolve um conjunto de possibilidades, mas cada tipo de câncer utiliza especificamente algumas destas opções. Nesse momento de pandemia, sempre que for possível, o uso de medicamentos orais deve ser indicado, ao invés de infusão. Mas nem todos têm essa alternativa. Então, nossa recomendação é de que continuem seguindo o que já foi proposto por seus médicos e que evitem aglomerações e contato com outras pessoas.

Pacientes oncológicos que estiverem com sintomas ligados ao coronavírus devem procurar o pronto-socorro imediatamente?

Piana: O pronto-atendimento, principalmente nesse momento de pandemia, traz riscos aos pacientes oncológicos pela potencial convivência com outras pessoas com sintomas gripais. Assim, quem estiver com sintomas gripais leves (tosse, coriza, dor de garganta) não precisa ir ao pronto-atendimento. Mas é necessário ficar atendo à progressão dos sintomas e reavaliar todos os dias. Se surgir febre acima de 37,8º C, dor ao respirar ou falta de ar, o paciente oncológico deve procurar avaliação médica, incluindo o pronto-socorro se necessário. É importante lembrar também que, pelas condições desse paciente, pode ser que ele não desenvolva febre.