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Trabalho remoto na pandemia pode aumentar os casos de Síndrome de Burnout. Entenda como tratar e prevenir

A pandemia de Covid-19 trouxe desafios para além do combate ao vírus. Muitos profissionais passaram a acumular cargas de trabalho excessivas e desgastantes em paralelo ao medo do desemprego e do endividamento, da doença e da morte. Trabalhadores da saúde, professores e profissionais de diversas áreas que também precisam cuidar dos filhos são exemplos emblemáticos das categorias mais prejudicadas. Por isso, é preciso falar também de saúde mental. Em especial, da Síndrome de Burnout, mal desencadeado pelo esgotamento físico e psíquico em períodos de estresse intenso e persistente.

Por razões culturais, há quem ainda enxergue a sobrecarga profissional como um sinônimo de relevância ou de sucesso, mas os riscos à saúde são graves.
Para a psicóloga Marina Arnoni Balieiro, do Hospital Edmundo Vasconcelos, de São Paulo, o cenário atual é altamente propício a desenvolvimento do problema. Entre os motivos, destacam-se a flexibilidade de horário do trabalho remoto e as restrições dos escapes antes habituais, como a pausas para o almoço e o cafezinho ao longo do dia, além da tradicional happy hour com colegas do trabalho no fim do expediente. “Tudo isso eleva a pressão sobre o indivíduo, o que pode levar a uma crise de ansiedade ou mesmo à depressão”, adverte Marina.

Mas por que algumas pessoas se tornam ansiosas, deprimidas ou chegam a desenvolver burnout ao passo que outras conseguem atravessar este período difícil com mais tranquilidade? “O desenvolvimento da síndrome não pode ser generalizado para toda a população, pois se trata de uma soma de fatores ambientais e atributos individuais. Por vezes, a pressão profissional pode ter origem na instituição empregadora, na própria profissão ou mesmo estar associada a características do paciente”, explica.

Independentemente do fator desencadeante, é importante observar os primeiros sinais para um diagnóstico precoce, considerando que o esgotamento costuma ocorrer de forma gradual. Ao longo da evolução do quadro, podem ocorrer, por exemplo, sinais como insônia, dificuldade de concentração, irritabilidade, baixa autoestima e desânimo. Quando o quadro atinge um estágio mais grave, surgem também dores (no corpo e de cabeça), uma insegurança bastante acentuada e depressão.

Para evitar essa evolução dos sintomas, o ideal é que o diagnóstico ocorra logo no início. Nesse estágio, em geral, psicoterapia e mudança de hábitos podem proporcionar o reestabelecimento da saúde física e mental antes do colapso. Em quadros mais avançados, quando o paciente tem crises de choro sucessivas e/ou não consegue mais sair da cama, pode ser necessário haver também acompanhamento psiquiátrico e medicação, em paralelo à psicoterapia. Ainda que a distância, no atual contexto de distanciamento social, o indivíduo precisa contar com uma rede de apoio para além dos profissionais de saúde, que inclua também familiares, amigos, vizinhos, chefes e colegas.

Fonte: edição do texto original do Hospital Edmundo Vasconcelos.

Como o novo ICMS paulista na saúde vai impactar a sua vida, não importa o estado onde você está

No final de 2020, o governo do estado de São Paulo contrariou um acordo histórico entre o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz) e todos os estados da federação para isenção de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) no setor da saúde no país inteiro. Com essa decisão, saltou de 0 para 18% a cobrança sobre remédios, tratamentos, exames e dispositivos médicos e odontológicos a partir de janeiro deste ano, em plena segunda onda da pandemia de Covid-19.

Com o fim da isenção de ICMS na saúde em São Paulo, brasileiros do país inteiro serão afetados, já que grande parte da indústria especializada fica no estado. As consequências serão graves, como aumento nos preços de planos e tratamentos, fechamento de leitos, desemprego na indústria e migração em massa dos pacientes para o SUS. Tudo isso afetará diretamente a vida das pessoas.

Veja, ponto a ponto, o tamanho do problema:

Planos e tratamentos mais caros
Apenas entre os membros da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), estima-se que o ICMS com alíquota de 18% aumentará os custos em cerca de R$ 1,3 bilhão, em plena pandemia, período que registra redução de receitas com cirurgias e tratamentos eletivos, ao mesmo tempo que aumentam as despesas dos hospitais com adaptações necessárias à prevenção e ao tratamento de casos de Covid-19. Isso deve repercutir nos preços de medicações, procedimentos e planos de saúde. Quimioterapias, hemodiálises, diversos outros tratamentos e equipamentos devem ficar mais caros.

SUS desabastecido
Segundo a Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Produtos para Saúde (Abraidi), os preços de diversos equipamentos importantes podem ficar impraticáveis para hospitais públicos. Cerca de 65% dos importadores e distribuidores de materiais hospitalares terão de deixar de atender o SUS durante a maior crise sanitária da história recente.

Aumento do desemprego
Com um novo imposto no contexto de prejuízos acumulados durante a pandemia, unidades privadas de saúde e indústrias terão de se adaptar para continuar em operação. A Abraidi estima que 72% das empresas do setor demitirão funcionários, o que agrava o cenário geral da economia brasileira. Atualmente, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desemprego no Brasil já era de 14,3% no terceiro trimestre de 2020, o equivalente a 14,1 milhões de pessoas.

Dispositivos médicos mais caros
De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (Abimo), 70% dos dispositivos médicos que abastecem o Brasil saem do estado de São Paulo. O fim da isenção do ICMS deve custar à saúde privada, em média, R$ 1 bilhão por ano sobre o preço de cerca de 200 dispositivos de alto custo, como implantes ortopédicos, neurológicos, stents, marcapassos e desfibriladores implantáveis.

Fechamento de hospitais
Com a postergação de cirurgias e procedimentos eletivos, os hospitais privados perderam de 17% a 20% da receita ao longo da pandemia até agora, segundo estimativa da Federação Nacional de Saúde Suplementar (FenaSaúde). Com o agravamento da crise desencadeado pelo novo imposto paulista, muitos estabelecimentos podem não resistir, o que é especialmente grave num contexto de pandemia. Segundo o Conselho Federal de Medicina, menos de 10% dos municípios brasileiros têm leitos de UTI no SUS. Ou seja, apenas 466 de um total de 5.570 municípios. Não é só. De acordo com o Cadastro Nacional de Estabelecimentos de Saúde, cerca de 70% das cirurgias de alta complexidade do SUS acontecem em hospitais privados. Ao mesmo tempo, 54% dos municípios brasileiros não têm nenhum hospital e mais da metade dos que têm só contam com a rede privada.

Janeiro Branco: no encerramento do mês, uma reflexão sobre saúde mental na pandemia

Neste ano, foi realizada em todo o território nacional a oitava edição de uma grande campanha por conscientização sobre sanidade mental. Ao estilo de outras iniciativas associadas a cores como o Outubro Rosa e o Novembro Azul, o Janeiro Branco (uma alusão ao início do ano como uma “página em branco” a ser preenchida) busca chamar a atenção para as questões relacionadas à saúde mental e emocional das pessoas, individualmente e nas instituições.

É um momento oportuno. De acordo com a médica Claudia Panfilio, neurologista do Pilar Hospital, de Curitiba, a quantidade de pacientes que chegavam aos consultórios com quadros de ansiedade e depressão no final de 2020 e início de 2021 foi aproximadamente 3 vezes maior que no mesmo período anterior.

“O ano passado foi de grandes mudanças e adaptações. Alguns viveram conflitos domésticos, desemprego, medo da morte ou, como nós da saúde, sobrecarga de trabalho. Alguns ficam relembrando saudosamente o passado, outros paralisados aguardando um futuro sem restrições. Isso ativa negativamente no cérebro um círculo vicioso”, alerta Claudia. “O segredo está em viver bem o presente, qualquer que seja ele. Achar alegria em cada coisa como estar com os filhos, elogiar o parceiro, preparar um almoço – aprender com tudo”, afirma.

Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) mostram que o Brasil é o segundo país das Américas com maior número de pessoas depressivas: 5,8% da população. Ou seja, perde por muito pouco para os EUA, com 5,9%. O estudo também afirma que o Brasil é ainda o país com maior prevalência de ansiedade no mundo: 9,3%.

Fatores genéticos e externos colaboram com este panorama, segundo a neurologista. “Sabemos que algumas pessoas têm predisposição genética à depressão e ansiedade. As incertezas sociais também agravam o quadro. Acredita-se que o Brasil tenha um dos maiores índices de ansiedade do mundo devido à pobreza, ao desemprego e à violência”, avalia.

Ao mesmo tempo, Cláudia destaca: “A ciência também prova que atitudes mentais e físicas mais positivas ativam circuitos neuronais que ampliam a capacidade de raciocínio, criatividade e, sobretudo, o sistema de recompensa, gerando um bem-estar muito mais sólido e duradouro.”

A neurologista é enfática ao afirmar que é necessário buscar pensamentos e atitudes positivas, como uma forma de autocuidado no segundo ano pandêmico que se inicia. “Podemos ser felizes presos em casa ou trabalhando na linha de frente? Claro que sim! Tentar fugir do presente revivendo o passado ou só pensando no futuro, ou, pior ainda, alterando a consciência com álcool não traz paz nem felicidade.”

Para a médica, a melhor estratégia é fazer justamente o contrário: ampliar a consciência sobre o que se vive aqui e agora.

Aproveite o seu foco em bem-estar para conferir outras matérias do Saúde da Saúde sobre o assunto:

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Como controlar o estresse na pandemia

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Volta às aulas: orientações de especialistas para minimizar os riscos

A partir de fevereiro, as aulas presenciais passam a ser retomadas em alguns estados brasileiros – para algumas escolas particulares, a volta ocorre já no final de janeiro. A iniciativa, mesmo que gradativa, ainda divide a opinião dos pais, tendo em vista que os casos de contaminação e morte por Covid-19 voltaram a aumentar no país em ritmo acelerado. Este texto reúne orientações de especialistas sobre as principais medidas preventivas, que envolvem triagem de sintomas, protocolos de higiene, orientação e participação da família.

Para início de conversa, a pediatra Gabriela Murteira, do Vera Cruz Hospital, de Campinas, adverte que muitos pais demonstram preocupações baseadas em notícias falsas e dados não científicos. “Este é o momento de disseminarmos informações de qualidade, pois o prejuízo dessas crianças sem acesso às aulas essenciais é muito maior do que o risco que elas possam correr. Estudos mostram que o risco dessas crianças na escola não é maior do que na comunidade”, defende.

A médica reforça ainda que a volta à sala de aula é facultativa. “Ninguém é obrigado a retornar neste momento. Se você faz parte de uma família 100% isolada e considera melhor permanecer assim, tudo bem. Mas não adianta deixar as crianças em casa enquanto os pais voltam para os escritórios, oferecendo os mesmos riscos à família”, pondera. Para Gabriela, os protocolos de segurança, redução no número de alunos e bolhas sociais que vão isolar grupos específicos são algumas das medidas de garantia.

O uso da máscara, entretanto, é obrigatório apenas para maiores de 12 anos. “Até cinco anos, o uso não é sequer indicado, e essa regra permanece mesmo com o retorno das aulas. Já para as crianças de seis a 11 anos, a decisão é facultativa”, reforça. “Tivemos muita procura por orientação nos últimos dois meses. Indicamos que as famílias avaliem o risco e entendam que se trata de um compartilhamento de responsabilidades.”

Para a pediatra, a suspensão das aulas presenciais teve um papel importante na redução de casos da Covid-19, diminuindo a circulação e desafogando o sistema de saúde. Mas, agora, os prejuízos psicológicos e educacionais de permanecer em casa podem se tornar um problema. “Temos recebido muitos pacientes com crise de ansiedade, ou seja, estão surgindo consequências de um isolamento que já pode, com todas as regras e os protocolos, ser interrompido parcialmente.”

A médica alerta ainda para o risco de se baixar a guarda diante da chegada da vacina. “É importante afirmar que, apesar de trazer respiro, a imunização tem como principal objetivo reduzir as internações, a gravidade dos casos e as mortes. Mas até que tenhamos uma vacinação em massa, não devemos mudar os nossos hábitos e cuidados diários”, orienta.

Consciência coletiva

Para o médico infectologista Leonardo Ruffing, também do Vera Cruz, a nova realidade requer certas medidas, como: notificação no caso de sintomas dos alunos ou familiares; não negligenciar nenhum quadro febril, mesmo que leve; pensar no coletivo; manter protocolos de higiene, como troca diária do uniforme, higienização completa assim que chegar em casa e diálogo da escola com os pais, além de testagem periódica dos funcionários.

Outro alerta diz respeito ao cuidado com brinquedos coletivos nos espaços de educação. O ideal é que cada criança tenha o seu e que ele seja higienizado com bastante frequência. “Sugerimos ainda as atividades ao ar livre, principalmente nos casos de pré-alfabetização”, frisa o médico.

De maneira geral, crianças não correm grandes riscos, mas são vetores da doença e é preciso levar isso em conta. “Ainda estamos ponderando riscos e benefícios. Nenhum tipo de coletividade é 100% segura, mas em países como a Alemanha, por exemplo, a educação vem sendo considerada serviço essencial”, diz Leonardo. Há de se levar isso em conta.

(Fonte: Edição de texto original do Vera Cruz Hospital)

Distanciamento social: como o cérebro rastreia os seus passos e das pessoas ao redor

Em tempos de pandemia, um estudo revela que o cérebro humano está mais atento do que se imaginava a aglomerações. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) constataram que, quando você divide um ambiente com outros indivíduos, diferentes padrões de ondas cerebrais monitoram o movimento das pessoas ao redor, ajudando você a encontrar lugares mais vazios ou mesmo evitar uma colisão involuntária.

“Nossos cérebros criam uma assinatura universal para nos colocar no lugar de outra pessoa”, explica a neurocirurgiã Nanthia Suthana, autora do estudo publicado pela revista Nature. Nanthia e uma equipe de pesquisadores observaram pacientes com epilepsia, cujos cérebros tiveram eletrodos implantados cirurgicamente para controlar convulsões. Os eletrodos foram alocados no lobo temporal medial, o centro do cérebro ligado à memória e que pode ser o responsável por controlar a navegação do indivíduo, como um GPS do corpo.

Pesquisas realizadas com roedores já haviam mostrado que ondas de baixa frequência eram geradas em neurônios do lobo temporal medial para ajudar esses animais a manter o controle de seu deslocamento. Para verificar se o conceito valeria também para seres humanos, os cientistas criaram uma mochila especial, contendo um computador capaz de se conectar, via wireless, aos eletrodos cerebrais. Os equipamentos foram entregues aos pacientes, permitindo que os pesquisadores acompanhassem a variação das ondas enquanto se movimentavam livremente.

Durante o experimento, cada paciente carregou a mochila e foi instruído a explorar uma sala vazia, encontrar um local escondido e lembrá-lo para futuras buscas. Enquanto caminhavam, a mochila registrava suas ondas cerebrais, movimentos dos olhos e caminhos pela sala em tempo real.

Conforme vasculhavam a sala, suas ondas cerebrais fluíam em um padrão distinto, sugerindo que os seus cérebros haviam mapeado as paredes e outros limites. Curiosamente, as ondas cerebrais s também fluíram de maneira semelhante quando eles se sentaram em um canto da sala e viram outra pessoa se aproximar do local. A descoberta implica que o cérebro produz o mesmo padrão para rastrear não apenas os próprios passos, mas também os de outras pessoas em um ambiente compartilhado.

A autora do estudo explica por que esta descoberta é importante: “As atividades cotidianas exigem que naveguemos constantemente em torno de outras pessoas quando estamos no mesmo lugar. Considere escolher a fila de segurança mais curta do aeroporto, procurar uma vaga em um estacionamento lotado ou evitar se esbarrar em alguém na pista de dança”, afirma Nanthia.

No atual contexto de pandemia de Covid-19, em que o distanciamento social é a melhor estratégia de prevenção enquanto as vacinas não chegam, esse recurso é mais que oportuno.

(Fonte: Edição do texto original de Frederico Cursino, da Agência Einstein)

Terapia celular: reforço no tratamento de casos graves de covid-19

Um estudo brasileiro apresenta resultados preliminares animadores para o tratamento da insuficiência respiratória aguda causada pelo coronavírus. Iniciado em Salvador, no Centro de Biotecnologia e Terapia Celular do Hospital São Rafael, o trabalho é fruto de muitos anos de pesquisa e envolvimento de dois grupos de pesquisa de referência na área de medicina regenerativa no Brasil, um liderado pelo médico Bruno Solano, do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR) e outro comandado pela médica Patrícia Rocco, do Laboratório de Investigação Pulmonar do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho, da UFRJ.

O poder das chamadas células tronco mesenquimais (MSCs) no tratamento de doenças oncológicas, medulares, degenerativas, entre outras, já é amplamente conhecido: com capacidade de autorrenovação e diferenciação, elas se transformam em diferentes células que compõem tecidos do corpo. Agora,  também podem representar uma esperança para o tratamento de pacientes com quadros graves de covid-19. O Saúde da Saúde conversou com o médico Bruno Solano sobre a pesquisa:

O que são as MSCs?
 
Bruno Solano – São células-tronco que podem ser obtidas de tecidos adultos, como a medula óssea e o tecido adiposo, ou perinatais, como o tecido do cordão umbilical. Estas células têm propriedades terapêuticas pois são capazes de reconhecer e responder a ambientes de lesão, estimulando o controle da inflamação e processos de regeneração e reparo. Suas ações decorrem do conjunto de moléculas e das vesículas extracelulares que essas células liberam no ambiente lesionado. Podemos utilizar terapeuticamente tanto as células como as vesículas, que carregam mediadores importantes para a resolução da inflamação e ativação de processos de reparo.
Como poderiam ser úteis em males decorrentes da pandemia?
Acreditamos que a administração de MSCs e vesículas possa ter um papel no tratamento dos casos graves da covid-19, com hiperinflamação e lesão no tecido pulmonar, além de comprometimentos sistêmicos. Dados preliminares têm demonstrado a capacidade de imunomodulação dessas células e no controle de marcadores de resposta inflamatória. Elas também exercem atividade anti-fibrose e podem contribuir para a recuperação dos pacientes com danos pulmonares decorrentes da covid-19 e do tempo prolongado de ventilação mecânica.
Qual é o formato da pesquisa? 
A primeira etapa foi um estudo piloto envolvendo dez pacientes, que já foi finalizado. Estamos agora na etapa de análise de dados. Os pacientes receberam as MSCs em diferentes doses com foco no monitoramento de segurança e na evolução clínica dos pacientes. Os dados deles são acompanhados pela Anvisa.
Quais são os possíveis riscos e efeitos colaterais envolvidos? 
O maior temor da injeção de MSCs por via endovenosa é o risco de indução de coagulação e eventos tromboembólicos, que podem ser minimizados com o uso de anticoagulação, com o adequado controle de qualidade do processo de produção das células e com a utilização de doses seguras.
Em caso de eficácia comprovada, em quanto tempo o tratamento estará disponível para pacientes fora da pesquisa?
Tudo dependerá primeiro do cumprimento do processo regulatório e da comprovação de segurança e eficácia do tratamento. Caso os resultados sejam positivos, tenho certeza de que não haverá dificuldade em buscar parcerias para viabilizar a terapia para um maior número de pacientes.
Será um tratamento caro? 
Trata-se de um produto terapêutico de alta complexidade e, portanto, o custo de produção em boas práticas é elevado. No entanto, espera-se que ocorra uma redução de custo com o ganho de escala de produção, caso a terapia venha a ser amplamente disponibilizada.

Ester Sabino: “Não há motivos para achar que a vacina não irá funcionar”

Em fevereiro de 2020, a imunologista Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP e cientista do Instituto Adolfo Lutz e da Universidade de Oxford, anunciou um feito e tanto para a comunidade científica: apenas dois dias após a confirmação do primeiro caso da Covid-19 em território nacional, o grupo liderado pela médica e outros brasileiros já havia conseguido sequenciar o genoma do vírus. Um tempo recorde, especialmente considerando que, em outras nações afetadas, a média para decodificação do Sars-Cov-2 havia sido de 15 dias.

Seria exagero dizer que a vida de Ester Sabino mudou da noite para o dia. Mas o fato é que, em 48 horas, a cientista alcançou um status inédito em mais de três décadas de carreira. À frente de trabalhos importantes na área de imunologia, contribuiu para o avanço dos estudos sobre a Doença de Chagas e ainda participou dos primeiros sequenciamentos dos genomas do HIV e do Zika Vírus no Brasil – este último lhe renderia inclusive um convite para uma parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Desta vez, no entanto, a repercussão ultrapassou os muros acadêmicos.

Com o mapeamento do genoma, é possível entender o percurso da transmissão e o tempo em que o vírus está circulando em determinada região, informações essenciais para a adoção de medidas de contenção. A façanha rendeu a Ester uma homenagem inesperada de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, que emprestou os traços da personagem Magali para transformá-la na cientista. “Foi (um reconhecimento) importante porque era um momento em que os cientistas vinham sendo desqualificados”, comenta. “A ciência é algo que, se você para de investir, fica difícil de retomar. Perde-se uma geração, duas…”

O convite para trabalhar com o sequenciamento do novo coronavírus chegou de forma abrupta, como a própria eclosão da pandemia. Mas Ester e sua equipe já estavam preparados. Desde 2012, o grupo do IMT-USP vinha desenvolvendo o método de identificação de genomas virais, inicialmente durante o surto da dengue naquele ano e, depois, na epidemia do zika vírus em 2016. “Mas, no caso do zika, só conseguimos concluir o sequenciamento quando a epidemia havia acabado. Então, o nosso foco foi melhorar esse timing, para conseguir trazer resultados mais cedo”, afirma.

Ester também coordena o sequenciamento do genoma de três mil pacientes de Anemia Falciforme e ainda lidera um estudo de prevalência do novo coronavírus com base em amostras de bancos de sangue. Foi nesta oportunidade que chegou a cogitar, em setembro de 2020, a possibilidade de Manaus ter adquirido imunidade de rebanho contra a Covid-19. Porém, o novo aumento de casos na capital amazonense logo no mês seguinte acabaria afastando a tese.

“As análises do banco de sangue haviam mostrado uma prevalência de 66% de contaminados, que é o valor teórico para a imunidade de rebanho para um vírus com essa característica. É um conceito teórico, não quer dizer que a epidemia acaba.” Ester acrescenta que outras capitais, como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, também apresentam índices próximos. Mas o País, no geral, ainda estaria longe da taxa necessária para a imunidade. “Outro problema é saber se eles irão se reinfectar. Pois no momento em que isso acontece, não se pode mais falar em imunidade rebanho”, afirma.

Por isso, ela reforça a necessidade da adesão total à vacina, assim que estiver disponível, como a melhor forma de se controlar a doença no País. “Estou muito otimista, porque a vacina bem funcionou em modelos animais e não há motivos para achar que ela não irá funcionar.”

(Edição da entrevista concedida a Frederico Cursino, da Agência Einstein)

Entenda o papel da ciência no combate à pandemia de covid-19

No momento, há cerca de 200 estudos catalogados na Organização Mundial da Saúde (OMS) para a fabricação de vacinas contra o coronavírus – em 11 deles, os testes já chegaram à fase 3. Segundo o médico imunologista Jorge Kalil, que lidera um grupo de cientistas brasileiros na corrida pela vacina, “é absolutamente fantástico que tenhamos chegado tão rápido a esses resultados”. Ele é diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo (USP) e participou da plenária sobre O Papel da Ciência e da Tecnologia no Combate à Pandemia durante a última edição do Congresso Nacional de Hospitais Privados, o Conahp 2020.

Num contexto em que a ciência sofre com campanhas de descrédito político-ideológico no Brasil e em diversos outros países, Kalil ressaltou a agilidade e a eficiência de profissionais de virologia, epidemiologia e imunologia em todo o mundo. “Os resultados dessas vacinas já aparecem em menos de um ano do surgimento da pandemia, um feito histórico”, disse. A vacina contra o ebola, em comparação, tomou cerca de 15 anos de estudos e testes até ser considerada pronta.

“O Sars-CoV-2 (como foi batizado o novo coronavírus) veio para ficar”, frisou o imunologista. “Só pode ser controlado, como o vírus da influenza.”  E as únicas maneiras de enfrentar uma pandemia passam necessariamente pela ciência: o desenvolvimento de um tratamento simples, efetivo e barato, o que ainda não existe; o estabelecimento da imunidade de rebanho, que acarretaria ainda muitos adoecimentos e mortes; e uma ou mais vacinas, a perspectiva mais razoável hoje no curto prazo.

Além dessas questões cruciais, a pesquisa da vacina brasileira em desenvolvimento pela equipe liderada por Jorge Kalil tem como objetivos  ser aplicada em dose única com método não-injetável, ter baixo custo e ser produzida com autonomia tecnológica. “É um trabalho de valor incalculável, especialmente no Brasil, onde a ciência já sofria há anos com falta de recursos, mas conseguiu se reerguer.”

Home Care: qualidade de vida para o paciente e redução de custos

O home care, ou internação domiciliar, permite a continuidade do tratamento em casa para aqueles pacientes com quadros clínicos estáveis, mas que ainda necessitam de assistência, sem depender da estrutura hospitalar.

Segundo a gerente da Atenção Domiciliar da S.O.S. Vida (BA), Cristiara Allem, uma das principais vantagens do home care se reflete na qualidade de vida do paciente, que pode ter de volta o convívio familiar e o aconchego do lar.

Além disso, a transferência para o ambiente domiciliar representa uma otimização dos recursos financeiros, afirma Cristiara. “A saúde no Brasil é cara, e a internação domiciliar é uma alternativa para melhorar a gestão destes recursos – seja na saúde suplementar, seja na saúde pública. Depois que é estabelecido um diagnóstico e um tratamento possível, é necessário desospitalizar. Por que estar dentro de um hospital sem necessidade?”, diz a médica gastroenterologista.

Dados da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) divulgados neste ano apontam que as internações clínicas em hospitais, sem uso da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), tiveram custo/dia de R$ 1.565, com gasto total de R$ 6.963 por uma média de quatro a cinco dias de hospitalização.

Pandemia

O home care tornou-se ainda importante no contexto da pandemia, afirma Cristiara. A internação domiciliar permitiu aos pacientes que precisaram passar por cirurgias, por exemplo, realizar o pós-operatório em casa, onde há menos risco de contaminação. Na outra ponta, isso contribuiu para liberar leitos hospitalares para situações de emergência.

Segundo Cristiara, o home care é um modelo de assistência que requer uma logística robusta de equipamentos, suprimentos e profissionais, além de investimento contínuo em qualidade e segurança. Também é uma área que está em constante inovação para poder realizar na residência do pacientes novos procedimentos.

“O home care está sempre se reinventando e incorporando coisas novas. A S.O.S. Vida tem entre seus valores a inovação e busca se diferenciar, realizando procedimentos que não fazia no passado. A quimioterapia, por exemplo, apesar de não ser o carro-chefe dos atendimentos, já é possível fazer em home care”, explica.

Controle do estresse na pandemia é o caminho para manter a saúde mental

A pandemia de covid-19 contribuiu para aumentar os níveis de estresse da população e, em alguns casos, agravar o quadro de pacientes que necessitam de tratamento psiquiátrico. “Isso se deve à antecipação de um futuro incerto, ao medo de pegar a doença e de sofrer consequências graves, além de grandes períodos de isolamento social e de sedentarismo”, explica Leandro Paulino da Costa, psiquiatra do Hospital Santa Virgínia (São Paulo – SP).
O especialista dá orientações práticas para o controle do estresse na pandemia, que é o melhor caminho para manter a saúde mental. Inspire-se no Dia Mundial de Combate ao Estresse, celebrado neste 23 de setembro, e comece a colocar essas ações na sua rotina:

Faça atividades físicas
Tente manter uma rotina de exercícios com atividades que são prazerosas para você. A atividade física ativa a liberação de hormônios e neurotransmissores que provocam a sensação de bem-estar e relaxamento.

Reserve momentos para relaxar
Inclua no seu dia a dia alguns momentos de lazer, que trazem prazer e ajudam a relaxar, desativando os circuitos produtores de sintomas de estresse.

Viva o agora
Exercícios de meditação são uma forma de treinar o foco da mente no presente. Um dos mais conhecidos é o mindfulness, técnica que consiste em direcionar a atenção a partes específicas do corpo, sensações táteis ou à respiração. Quando nos concentramos no agora, evitamos que a mente entre no modo stand-by ou de ruminação, que é uma grande fonte de ansiedade e estresse.

Fale sobre os seus sentimentos
A psicoterapia é uma ótima forma de prevenir o estresse, pois favorece o autoconhecimento e nos ajuda a trabalhar questões cotidianas. Ao aceitar nossas limitações, o grau de cobrança e de culpa pode diminuir, contribuindo para reduzir os níveis de estresse.

Conecte-se com o que te faz bem
Use a tecnologia a seu favor para se conectar com pessoas queridas e cultivar laços afetivos saudáveis e positivos.

Coma bem e descanse
Procure dormir, pelo menos, sete horas por noite. A privação de sono causa irritabilidade, diminuição de atenção e concentração – o que agrava o estresse. Dê preferência a alimentos naturais e evite os industrializados, muito gordurosos e ricos em sódio.

Mas afinal, o que é o estresse?
O psiquiatra Leandro Paulino da Costa explica que o estresse, em si, não é uma doença, mas uma reação natural do organismo que ajuda a nos proteger de situações de perigo – por exemplo, um animal feroz se aproximando.
Neste momento, diversas alterações ocorrem em nosso corpo, elevando o estado de alerta e nos preparando para atacar ou fugir. Há o aumento da frequência cardíaca e da tensão muscular, ocorre a dilatação das pupilas e a respiração fica mais ofegante. Depois de um tempo, quando nos sentimos seguros, tudo volta ao estado normal.
Porém, no ritmo de vida atual – com muitas horas de trabalho, competitividade, cobranças e, agora, uma pandemia –, ficamos em estado de tensão constante, ativando os circuitos de estresse e produzindo vários sintomas incômodos, que podem aumentar o risco de doenças psiquiátricas. No longo prazo, esse quadro pode predispor a uma série de doenças como Síndrome de Burnout, depressão, ansiedade generalizada, transtorno do pânico, entre outros.
A boa notícia é que existe tratamento para todas elas, envolvendo o acompanhamento psicoterápico e, quando necessário, o uso de medicamentos.

Principais sintoma de estresse
Caso algum dos sintomas abaixo persista por mais de duas semanas e comece a afetar a sua qualidade de vida, o convívio social ou o desempenho no trabalho, é importante procurar um especialista para avaliação:

– Alteração de humor
– Perda de prazer em atividades
– Falta de energia
– Dificuldade de concentração
– Dor de cabeça
– Insônia
– Sintomas adrenérgicos (sensação de falta de ar e palpitação)
– Pensamentos ruminativos (por exemplo, excesso de preocupação com as contas a pagar, problemas no trabalho e familiares…)