Arquivo da tag: vacina

Tudo o que já se sabe sobre a imunização continuada contra a Covid-19

Como forma de reforçar a resposta imunológica de grupos específicos, a terceira dose da vacina já começa a fazer parte do calendário das cidades

Desde que atingiu o patamar de pandemia, estabelecido pela Organização Mundial da Saúde em março de 2020, a Covid-19 apresentou diversas variações e, consequentemente, diferentes respostas do vírus às plataformas vacinais existentes até o momento.

Para reforçar a ação imunizante e, possivelmente, evitar escapes provocados por cepas mutantes, o Ministério da Saúde optou por seguir o exemplo de outros países e recomendar a terceira dose da vacina – a princípio, para idosos acima de 70 anos e pessoas consideradas imunossuprimidas. No entanto, estados como São Paulo já disponibilizaram calendário contemplando outras faixas etárias, a partir dos 60 anos*.

Conversamos com especialistas e respondemos, abaixo, tudo o que você precisa saber sobre a dose de reforço contra o coronavírus.

> Dra. Viviane Hessel Dias, infectologista e coordenadora do Núcleo de Epidemiologia e Infecção Hospitalar do Hospital Marcelino Champagnat

Por que a necessidade de uma terceira dose da vacina contra Covid-19?
Por meio das análises de acompanhamento da vacinação, tem sido observada uma queda progressiva de proteção, especialmente em idosos acima de 70-80 anos. Outro grupo que pode ter resposta diminuída de soroconversão são os pacientes imunossuprimidos. Nesses grupos, a administração de uma terceira dose pode melhorar a resposta imunológica.

Qual o intervalo de tempo indicado para o reforço?
Seis meses após a última dose do esquema vacinal utilizado.

O que pode acontecer caso eu não tome a dose de reforço?
Se você pertence a algum dos grupos específicos em que a dose de reforço é indicada, a não realização dessa dose pode impactar em aumento do risco de infecção e hospitalização relacionada à Covid-19.

> Dra. Isabella Albuquerque, infectologista e chefe do Serviço de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital São Vicente de Paulo

A terceira dose da vacina deve ser da mesma marca que tomei anteriormente?
A previsão é de que a terceira dose seja feita com plataforma vacinal diferente da inicial, havendo preferência pela vacina da Pfizer, sempre que disponível. Na sua falta, as demais deverão ser utilizadas.

Que reações posso ter ao tomar a terceira dose?
As mesmas associadas às doses anteriores, dependendo da plataforma vacinal utilizada. Desde nenhuma reação, passando por dor no local da injeção, até reações sistêmicas como febre, dor de cabeça e dor no corpo.

Com a terceira dose, já é permitido abandonar hábitos como o uso de máscaras e higienização das mãos com álcool em gel?
Não, tais hábitos devem ser mantidos minimamente até que toda a dinâmica da doença e da resposta imunológica às vacinas seja totalmente conhecida.

Fique sabendo!
Quais são os grupos de imunossupressão mediada por doença ou medicamentos e imunossuprimidos?

– Imunodeficiência primária grave

– Quimioterapia para câncer

– Transplantados de órgão sólido ou de células tronco hematopoiéticas (TCTH) que estão usando drogas imunossupressoras

– Pessoas vivendo com HIV/Aids com CD4 menor do que 200 céls/mm3

– Uso de corticoides em doses maior ou igual a 20 mg/dia de prednisona, ou equivalente, por mais de 14 dias

– Uso de drogas modificadoras da resposta imune

– Pacientes em hemodiálise

– Pacientes com doenças imunomediadas inflamatórias crônicas (reumatológicas, auto inflamatórias, doenças intestinais inflamatórias).

 *Confira o calendário vacinal de seu município. O período pode variar de acordo com a recomendação local. 

Perguntas e respostas sobre as diferentes vacinas contra a Covid-19

Tudo o que já se pode saber sobre os imunizantes hoje disponíveis. E o que ainda falta descobrir

Quem se vacina não protege apenas a si mesmo, mas também as pessoas ao redor – e em outros lugares onde a doença pode chegar. Por tabela, os imunizantes beneficiam até pessoas que não podem se proteger, por ter outras doenças graves. Por isso, as vacinas contra a Covid-19 têm sido tão disputadas no mundo inteiro. São oportunas, eficazes e seguras, mas muito novas na perspectiva da ciência.

Para várias perguntas sobre este tema, ainda não há respostas, como explica a bióloga e doutora em imunologia Cristina Beatriz Bonorino, pesquisadora associada do Sistema Único de Saúde (SUS) e membro do Comitê Científico da Sociedade Brasileira de Imunologia (SBI), que falou sobre esse assunto em uma live promovida pelo Hospital Moinhos do Vento, de Porto Alegre. Mas respondemos algumas perguntas sobre o que se sabe até o momento em relação às vacinas disponíveis contra a Covid-19. Confira:

As vacinas contra Covid-19 são seguras?

Sim, de acordo com a SBI. Para qualquer vacina ser liberada, são feitos diversos testes de segurança e eficácia. As vacinas contemporâneas são de vírus inativados ou fragmentados, entre outras tecnologias ainda mais novas, mas nenhuma com potencial infeccioso. Antes de serem liberadas para aplicação na população, os imunizantes também são submetidos aos critérios pré-estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

As vacinas contra Covid-19 podem alterar o DNA?
Não. A vacina da Pfizer atua no RNA, um mensageiro que direciona  a produção de proteínas do vírus pelas células do indivíduo para que o sistema imunológico aprenda a reconhecê-lo e criar defesas. Nesse processo, o RNA exerce suas ações em uma região da célula que não tem contato com o DNA.

Quais são os efeitos colaterais dessas vacinas?
Segundo Bonorino, os mais comuns são febre baixa, dores no corpo, fadiga e dor no local da aplicação, que são sinais de que o sistema imunológico está respondendo à vacina. Esses efeitos colaterais são passageiros e desaparecem em 24 horas. Se passar disso, podem ser sintomas de uma infecção viral de outra ordem, que nada têm a ver com a vacinação. Então, é recomendado buscar ajuda médica.

O que fazer caso haja atraso na segunda dose?
“Várias pessoas hoje no Brasil estão nesse limbo, o que não poderia ter acontecido”, afirma a doutora em imunologia. O fato é que a segunda dose deveria ter sido reservada pelas autoridades competentes. Em geral, o que se tem feito é administrar a segunda dose assim que disponível, mas não há estudos sobre a eficácia das vacinas em prazos superiores aos estabelecidos pelos fabricantes. “O ideal agora seria que o Ministério da Saúde promovesse estudos clínicos para verificar isso.”

E se uma pessoa tomar uma dose de um fabricante e a segunda de outro?
Não há estudos que comprovem a eficácia dessa combinação, explica Bonorino. “No Brasil, em particular, há duas vacinas muito diferentes, a Coronavac e a AstraZeneca – uma não vale como segunda dose da outra porque induzem a formas de proteção diferentes”.

Com apenas uma dose, uma pessoa fica ao menos parcialmente imunizada?
A vacina da Johnson & Johnson é a única até o momento que pode ser aplicada em apenas uma dose. As demais preveem duas doses e não se sabe se têm algum grau de eficácia para além de poucas semanas caso a segunda etapa não se concretize.

Deve haver um intervalo entre as vacinas da gripe e da Covid-19?
Não há indicações de riscos relacionados à administração das duas ao mesmo tempo, mas tem se estabelecido um intervalo de 15 dias apenas para evitar confusão com efeitos colaterais dos dois imunizantes. Diversas vacinas para outras doenças já são tradicionalmente aplicadas em conjunto.

Quem já teve a doença, precisa se vacinar?

Sim. Ainda não se sabe exatamente por quanto tempo dura a proteção natural de quem já se contaminou e se curou.

Quem já está imunizado pode abrir mão dos cuidados preventivos (uso de máscaras, distanciamento social e higiene das mãos)?
Não. Nenhuma vacina tem 100% de eficácia. Ainda é possível, por exemplo, que a pessoa se infecte e permaneça assintomática, sendo capaz de transmitir o vírus. Por isso, os cuidados devem ser mantidos por tempo ainda indeterminado.

A imunização contra a Covid-19 deve se tornar anual, como a da gripe?

Como as vacinas contra a doença ainda são muito recentes, ainda não se sabe ao certo quanto tempo deve durar a imunidade que proporcionam. Isso ainda está sendo estudado. “O importante agora é que o maior número de pessoas seja vacinado no menor tempo possível”, afirma a imunologista.

Medidas de prevenção contra a Covid-19: é importante relembrar

Saiba como se proteger em todas as idades, vacinado ou não, saudável ou doente

O Ministério da Saúde lançou uma campanha em larga escala para conscientizar a população sobre três medidas fundamentais no combate à propagação do novo coronavírus e suas variantes: higiene das mãos, uso de máscaras e distanciamento social. O Saúde da Saúde aproveitou o ensejo para conversar com a infectologista Vera Rufeisen, do Vera Cruz Hospital, de Campinas, para reforçar a importância das medidas de prevenção contra a Covid-19  enquanto a vacinação avança no país e a propagação da doença segue estável, porém ainda num patamar alto.

Saúde da Saúde – A contaminação por superfícies é menos que intensa do que a por interação social? Por quê?
Vera Rufeisen – As partículas virais são transmitidas diretamente através da eliminação de gotículas respiratórias pela fala, pela tosse e pelo espirro, principalmente.  Mas também indiretamente, tocando as superfícies contaminadas com estas gotículas, e tocando o rosto (nariz, olhos e boca) com as mãos contaminadas.  A via respiratória é a principal forma de transmissão, é onde o vírus adere aos receptores nas células. As superfícies, portanto, podem servir apenas de intermediárias, caso a higiene das mãos não seja realizada adequadamente.

Há alguma diferença de eficácia entre lavar as mãos e usar álcool em gel?
O padrão ouro recomendado pela Organização Mundial da Saúde é a higiene das mãos com álcool em gel a 70%, desde que as mãos estejam sem sujidade aparente. Se estiverem sujas, devem ser lavadas com água e sabão. O álcool tem espectro de ação grande, é mais prático, pode estar no ponto de assistência, tem ação rápida e não causa lesões na pele. O tempo necessário para higiene completa das mãos com álcool em gel é de 20 a 30 segundos. A Campanha deste ano da OMS fala sobre “os 20 segundos que salvam vidas”.

Qual é o papel da alimentação na prevenção e no tratamento da doença?
A alimentação saudável, sem alimentos ultraprocessados, com frutas, legumes e verduras, associada aos bons hábitos de vida e  atividade física  promovem a base da vida saudável, e consequentemente de uma boa imunidade.

Que medidas uma pessoa já contaminada pode tomar para minimizar os riscos de desenvolver a forma grave da doença?
A pessoa contaminada deve permanecer em isolamento social – mesmo em domicílio, se morar com alguém –,  em repouso relativo: não muito tempo deitado nem na mesma posição, a fim de proporcionar expansão pulmonar adequada. Deve também se manter bem hidratado, controlar as doenças pré-existentes, além de monitorar atentamente a sua temperatura e a oximetria do sangue. Habitualmente, as complicações acontecem entre o sexto e o nono dias do início dos sintomas. Caso ocorra queda na oxigenação do sangue ou reaparecimento de febre, por exemplo, deve-se procurar imediatamente o serviço de saúde.

Qual é a importância  de uma grande campanha a nível federal sobre bons hábitos de prevenção?
É de extrema importância que o país tenha uma liderança uníssona para enfrentamento da pandemia. Algumas pessoas, por cansaço ou por desinformação tendem a relaxar as medidas de prevenção, e precisam ser estimuladas e direcionadas por um governo assertivo, guiado por posicionamento científico. Quando um líder questiona as medidas de prevenção, cria uma névoa de dúvidas, confundindo os menos esclarecidos, e dando voz aos que negam a gravidade da maior tragédia sanitária do século.

Ester Sabino: “Não há motivos para achar que a vacina não irá funcionar”

Em fevereiro de 2020, a imunologista Ester Sabino, diretora do Instituto de Medicina Tropical da USP e cientista do Instituto Adolfo Lutz e da Universidade de Oxford, anunciou um feito e tanto para a comunidade científica: apenas dois dias após a confirmação do primeiro caso da Covid-19 em território nacional, o grupo liderado pela médica e outros brasileiros já havia conseguido sequenciar o genoma do vírus. Um tempo recorde, especialmente considerando que, em outras nações afetadas, a média para decodificação do Sars-Cov-2 havia sido de 15 dias.

Seria exagero dizer que a vida de Ester Sabino mudou da noite para o dia. Mas o fato é que, em 48 horas, a cientista alcançou um status inédito em mais de três décadas de carreira. À frente de trabalhos importantes na área de imunologia, contribuiu para o avanço dos estudos sobre a Doença de Chagas e ainda participou dos primeiros sequenciamentos dos genomas do HIV e do Zika Vírus no Brasil – este último lhe renderia inclusive um convite para uma parceria com a Universidade de Oxford, no Reino Unido. Desta vez, no entanto, a repercussão ultrapassou os muros acadêmicos.

Com o mapeamento do genoma, é possível entender o percurso da transmissão e o tempo em que o vírus está circulando em determinada região, informações essenciais para a adoção de medidas de contenção. A façanha rendeu a Ester uma homenagem inesperada de Maurício de Sousa, criador da Turma da Mônica, que emprestou os traços da personagem Magali para transformá-la na cientista. “Foi (um reconhecimento) importante porque era um momento em que os cientistas vinham sendo desqualificados”, comenta. “A ciência é algo que, se você para de investir, fica difícil de retomar. Perde-se uma geração, duas…”

O convite para trabalhar com o sequenciamento do novo coronavírus chegou de forma abrupta, como a própria eclosão da pandemia. Mas Ester e sua equipe já estavam preparados. Desde 2012, o grupo do IMT-USP vinha desenvolvendo o método de identificação de genomas virais, inicialmente durante o surto da dengue naquele ano e, depois, na epidemia do zika vírus em 2016. “Mas, no caso do zika, só conseguimos concluir o sequenciamento quando a epidemia havia acabado. Então, o nosso foco foi melhorar esse timing, para conseguir trazer resultados mais cedo”, afirma.

Ester também coordena o sequenciamento do genoma de três mil pacientes de Anemia Falciforme e ainda lidera um estudo de prevalência do novo coronavírus com base em amostras de bancos de sangue. Foi nesta oportunidade que chegou a cogitar, em setembro de 2020, a possibilidade de Manaus ter adquirido imunidade de rebanho contra a Covid-19. Porém, o novo aumento de casos na capital amazonense logo no mês seguinte acabaria afastando a tese.

“As análises do banco de sangue haviam mostrado uma prevalência de 66% de contaminados, que é o valor teórico para a imunidade de rebanho para um vírus com essa característica. É um conceito teórico, não quer dizer que a epidemia acaba.” Ester acrescenta que outras capitais, como Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, também apresentam índices próximos. Mas o País, no geral, ainda estaria longe da taxa necessária para a imunidade. “Outro problema é saber se eles irão se reinfectar. Pois no momento em que isso acontece, não se pode mais falar em imunidade rebanho”, afirma.

Por isso, ela reforça a necessidade da adesão total à vacina, assim que estiver disponível, como a melhor forma de se controlar a doença no País. “Estou muito otimista, porque a vacina bem funcionou em modelos animais e não há motivos para achar que ela não irá funcionar.”

(Edição da entrevista concedida a Frederico Cursino, da Agência Einstein)

Conahp 2020: a vacinação precisaria ocorrer antes de março para se evitar a 2ª onda no Brasil

“O timing da vacinação contra a covid-19 será crucial para se prevenir ou não uma segunda onda em 2021 – o ideal é que aconteça no hemisfério sul antes da temporada de outono-inverno”, frisou Christopher Murray durante o Conahp 2020. O pesquisador é diretor do Instituto de Métricas e Avaliações em Saúde (IHME, na sigla em inglês), localizado em Seattle, nos Estados Unidos, e foi o convidado da plenária A Importância da Mensuração e da Análise de Dados no Combate à Pandemia.

Países como o Brasil teriam uma oportunidade que a Europa não teve para prevenir a explosão da doença antes de seus meses frios. “Infelizmente, os governos não se atentam para a sazonalidade como deveriam”, disse Murray. “A motivação política para as medidas de restrição costuma surgir muito tarde, quando os hospitais já estão lotados.”

As falas de Murray ocorreram em novembro, ainda no início do que vem sendo chamado de “repique” do avanço da pandemia em alguns estados do Brasil, o que levou alguns governadores a retomarem medidas restritivas de fases anteriores. Durante a plenária, a previsão do IHME era que o país chegaria a 188 mil mortos até março de 2021, se garantida manutenção do uso de máscaras pela maioria da população e as regras de desestímulo à circulação. Não foi divulgada a projeção de mortes caso essas medidas de segurança sejam negligenciadas. Em novembro, no Brasil, a mobilidade da população, medida a partir da geolocalização dos aparelhos de celular, já era apenas 10% menor que a percebida no “antigo normal”, antes da pandemia.

Em suas previsões, o IHME considera uma série de fatores além da circulação urbana, tais como: o uso de máscaras, as medidas restritivas adotadas pelos governos, o número de testes per capta, a sazonalidade, o índice de poluição do ar, a incidência do tabagismo na população, a densidade populacional e a até a altitude da região, já que a mortalidade tende a ser menor em localidades mais elevadas em relação ao nível do mar.

Segundo Murray, o IHME previu o pico da primeira onda ao redor do mundo de forma muito efetiva, mas estimava uma desaceleração mais rápida, o que gerou um aprimoramento em seus modelos de estudo. Agora o instituto consegue fazer previsões dos números de contágio e mortes com dez semanas de antecedência com uma margem de erro de 20%, a menor de que se tem notícia na categoria. Suas pesquisas utilizam dos números de centros de monitoramento do mundo inteiro, além de dados comportamentais (autodeclarados) gerados pelo Facebook.

De acordo com o programa de pesquisas da rede social, o estado mais “mascarado” do Brasil é São Paulo, com índices de adesão que variam entre 65% e 69%, mas o melhor desempenho é o do Distrito Federal, com uma oscilação entre 70% e 74%. O estado brasileiro com menor índice de usuários que declararam usar a proteção é o Maranhão, com índice inferior a 45%. No país (entre usuários do Facebook), a hesitação em relação à vacina é relativamente baixa, variando entre 10% e 19%. Em países do Leste Europeu e da África, essa desconfiança chega a 40%.

Entenda o papel da ciência no combate à pandemia de covid-19

No momento, há cerca de 200 estudos catalogados na Organização Mundial da Saúde (OMS) para a fabricação de vacinas contra o coronavírus – em 11 deles, os testes já chegaram à fase 3. Segundo o médico imunologista Jorge Kalil, que lidera um grupo de cientistas brasileiros na corrida pela vacina, “é absolutamente fantástico que tenhamos chegado tão rápido a esses resultados”. Ele é diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor), da Universidade de São Paulo (USP) e participou da plenária sobre O Papel da Ciência e da Tecnologia no Combate à Pandemia durante a última edição do Congresso Nacional de Hospitais Privados, o Conahp 2020.

Num contexto em que a ciência sofre com campanhas de descrédito político-ideológico no Brasil e em diversos outros países, Kalil ressaltou a agilidade e a eficiência de profissionais de virologia, epidemiologia e imunologia em todo o mundo. “Os resultados dessas vacinas já aparecem em menos de um ano do surgimento da pandemia, um feito histórico”, disse. A vacina contra o ebola, em comparação, tomou cerca de 15 anos de estudos e testes até ser considerada pronta.

“O Sars-CoV-2 (como foi batizado o novo coronavírus) veio para ficar”, frisou o imunologista. “Só pode ser controlado, como o vírus da influenza.”  E as únicas maneiras de enfrentar uma pandemia passam necessariamente pela ciência: o desenvolvimento de um tratamento simples, efetivo e barato, o que ainda não existe; o estabelecimento da imunidade de rebanho, que acarretaria ainda muitos adoecimentos e mortes; e uma ou mais vacinas, a perspectiva mais razoável hoje no curto prazo.

Além dessas questões cruciais, a pesquisa da vacina brasileira em desenvolvimento pela equipe liderada por Jorge Kalil tem como objetivos  ser aplicada em dose única com método não-injetável, ter baixo custo e ser produzida com autonomia tecnológica. “É um trabalho de valor incalculável, especialmente no Brasil, onde a ciência já sofria há anos com falta de recursos, mas conseguiu se reerguer.”

#AnahpOrienta: covid-19 no inverno e a importância da vacina contra gripe

Com a chegada do inverno, começam a circular os vírus respiratórios mais comuns a esta época do ano. No contexto da pandemia, essas doenças podem ser confundidas com a covid-19 por terem sintomas bem parecidos – o que torna a vacinação contra a gripe ainda mais importante.

“Pelo medo de ir ao posto de saúde durante a pandemia, a cobertura vacinal despencou, principalmente no grupo de risco”, afirma a infectologista e consultora da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) Camila Almeida.

Apesar de não ter eficácia contra o coronavírus, a vacina contra influenza ajuda os profissionais de saúde na hora de avaliar um diagnóstico suspeito de covid-19, além de reduzir a procura por serviços de saúde no inverno. Febre, tosse e dificuldade para respirar são exemplos de sintomas comuns da gripe e da covid-19. 

Covid no inverno

O pneumologista da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo José Rodrigues Pereira explica que a redução das temperaturas e da umidade relativa do ar, típicas do inverno, criam um ambiente favorável para a estabilidade e replicação do coronavírus e também do vírus da influenza. 

“Há ainda a questão comportamental. É muito comum no inverno as pessoas ficarem em ambientes fechados, pouco arejados, para que se mantenha uma temperatura agradável. Com janelas e portas fechadas, o ar circula menos e, se tiver o vírus neste ambiente, a chance da pessoa se infectar é maior”, explica. 

Pereira aponta também um fator imunológico: quando nós estamos expostos ao frio sem a devida proteção, existe uma pequena e transitória queda da imunidade que favorece com para que o vírus se fixe na via aérea, se replique e possa causar um processo infeccioso. 

Sintomas e prevenção

Coordenador da Pediatria da Rede Mater Dei de Saúde, Luís Fernando Carvalho explica a diferença dos sintomas de resfriado e gripe. “O resfriado comum caracteriza-se por sintomas de infecção de vias aéreas superiores causado por infecção viral, com sintomas como coriza, febre baixa, bom estado geral. Já a gripe, apresenta-se com acometimento do estado geral, com prostração, dor no corpo, febre e tosse, podendo evoluir para pneumonia com cansaço para respirar.”

“Principalmente nas crianças, a avaliação médica no pronto-socorro é recomendada sempre que houver prostração, cansaço para respirar ou piora do estado geral. Crianças com doenças crônicas como asma, anemia falciforme, câncer, diabetes, entre outras, também devem ser avaliadas na presença de infecção respiratória.” 

A prevenção da covid-19 e de outras doenças respiratórias típicas do inverno passa pela higiene frequente das mãos e de tudo o que chegar da rua com água e sabão ou álcool em gel. Carvalho também reforça a necessidade do uso de máscara, inclusive por crianças acima de 2 anos. 

 Mais do que nunca, o momento é de manter os ambientes limpos e umidificados, evitar aglomerações, locais fechados e beber bastante água. Também é importante não ter contato com pessoas doentes. Outras ações simples, mas igualmente relevantes, são a alimentação saudável e a prática de exercícios, que fortalecem a imunidade do organismo.